Como
disse antes eu tinha cursado faculdade para ser chamado de doutor e faturar
grana e dane-se o falso moralismo de fazer justiça. Voltando ao Brasil ampliei
os negócios de consultoria empresarial que resolvia problemas de empresas
falidas ou quase fechando as portas. Com a ajuda de Tio Pepe, irmão de mamãe,
começamos a investir em compra e venda de imóveis e empresas em situação
decadente as quais recuperávamos e vendíamos. Esse ramo dava muito lucro e
muita diversão desde que se soubesse como pescar os clientes com mais potencial
de retorno, ou ao menos se divertir às custas deles e suas esposas ou filhas
safadas.
A grande maioria era um bando de empresários do interior que já
tinham vida ganha e que por descuido estavam levando o patrimônio pro buraco,
seja por má administração ou porque tinham herdado a coisa pronta. Muitos
desses herdeiros devido inexperiência na gestão perdiam tudo que tinha recebido
de mãos beijadas. Na maioria dos casos os caras são todos do mesmo perfil
- gostam de contar vantagens e se atolaram em rolos por sonegação ou porque
queriam crescer demais e terminavam fazendo o barco afundar como Titanics.
O meu
serviço era salvar esses caras do nocaute financeiro, antes que fosse tarde
demais ou que eles torrassem tudo sem conseguir nada de retorno. Seguindo as
dicas práticas de Tio Pepe e o que eu havia aprendido na teoria dos estudos
conseguíamos fazer bons negócios, nos tornando acionistas duma série de
empresas e anexando elas ao nosso grupo empresarial quando algum negócio dava
maior retorno e era do nosso interesse. Muitas vezes, na maioria dos casos, a
principal atividade era vender soluções aos empresários a beira do abismo. Uma
vez salvos da falência eles dormiriam em paz novamente sem o risco de ficar
pobre ou enfartar. Dormir em paz para um empresário ferrado é manter o cara com
grana no cofre bancando escola e faculdade para os filhos, jóias e vida de
dondoca para suas esposas, e carros zero km e viagens para amantes entre outras
coisas.
Foi nessa época visitando Minas Gerais que conheci um desses caras
que era o típico herdeiro mauricinho tapado filhinho da mamãe e do papai. O sujeito
achando que sua faculdadezinha de administração feita nas coxas era suficiente
para torná-lo um empresário apto a gerir uma rede de mercados e fazendas de
corte no interior de Minas. Nunca tinha trabalhado na vida, mas fazia questão
de passar-se por expert do mundo empresarial arrotando Peter Drake pra cima e
para baixo. Depois que o papai dele tinha falecido por ter tomado todas as
caninhas de alambique do sul de Minas, seria ele o filhinho do paizão rico,
ex-prefeito, ex-vereador e manda chuva da cidade o herdeiro de tudo que o pai
bem sucedido fizera. A mãe dele era uma daquelas peruas insuportáveis
estilo Odete Roitman que estava com medo que o garotinho dela findasse com o
reinado de ex-primeira dama da cidade, de presidente do chá beneficente das
comadres endinheiradas e o caralho a quatro que gente rica se mete para fazer
pose de bonzinho e ter status.
Chegando lá fiz uma reunião na sede da empresa deles numa tarde de
sexta e o camarada parecia que queria ser meu amigo, ou porque ninguém
suportava chatice em pessoa e por isso ele não tinha amigos; ou porque ele era
um boyzinho sem a menor simpatia. Apesar disso, aceitei ir jantar com ele e com
a Odete Roitman genérica na elegante residência da família classuda do interior.
Uma bela mansão com direito a serviçais uniformizados e um quadro cafona da
família em cima da lareira. O jantar só não foi o mais insuportável da minha
vida porque ele levou a noivinha dele para exibir como se fosse troféu de
pescaria. Ela estava acompanhada da irmã dela. A irmã não tinha a menor graça,
era uma garota de peso e muito extrovertida como é comum nas obesas. Já a noiva
do mineirinho xarope me deixou maluco. Pra variar, o nome dela era Camila, era
loira, parecia sósia da Carolina Dieckman. Tinha até aquela voz meio rouca e
jeito de falar pausado dela. Fiquei encantado com aquela deusa e pensando o que
ela viu naquele desgraçado filhote de cachaceiro com perua. Até achei que era
melhor deixar ele falir mesmo para ver se ela largava dele. Não fiz isso é
claro. No fundo sou um profissional com ética quando o assunto envolve grana,
mas quando envolve relacionamentos nunca foi o meu forte essa ética. Eu entrava
de sola mesmo pouco me importando quem fosse.
Depois do jantar quase entediante, a irmã da noiva teve uma idéia
genial. Sair para curtir uma balada e convidou para ir junto com eles. Como não
sou de recusar convites logo aceitei. Whiskey pra lá whiskey pra cá, o cara
tomou um porre e levamos ele para o colo da mamãe.
Por
ironia do destino a irmã da noiva tinha ficado na balada, até porque não era o
cunhado chapado que iria acabar com a noitada dela sendo que alguém estava
disposto a encarar o canhão. Com isso a bela noivinha ficou aos meus cuidados
para levar ela para casa no final das contas. Camila tal como a irmã
também não estava nem um pouco disposta a perder o resto da noite por causa do
noivinho fraco pra bebida e controlador. Disse que era para voltar pra balada
onde a irmã dela estava. Só que a irmã dela não estava mais lá quando voltamos.
Já tinha evaporando com algum gavião da night pra o abate. Ficamos lá
procurando a irmã desaparecida até saber do paradeiro dela. Como em cidade do
interior todo mundo sabe quem é quem - e tem a língua solta ainda mais sendo em
Minas - Camila disse que não era uma boa ficarmos ali juntos senão iria rolar
comentários. Digamos que a intenção dela era ir para um lugar menos agitado.
Ficamos dando voltas pela cidade, curtindo o final do verão, conversando, dando
boas risadas.
Geralmente o assunto dela era falar sobre o noivo e como era a
vida deles, sobre a mãe implicante que sempre que podia fazia questão de
colocar ela numa saia justa por ela ser duma família mais simples. Essas coisas
banais que surgem em qualquer papo com desconhecidos. Estacionei o carro na
frente da casa dela e ficamos ali umas duas horas batendo papo. Nessas duas
horas uma coisa ficou clara para mim: O noivo dela era um banana que não sabia
fazer aquela deusa feliz. Como eu sei disso? Simples. Ela disse que fazia muito
tempo que não ria tanto, e que o noivo era sempre sério e muito pegajoso,
controlador e ciumento. Pobre noivinha mal amada. Quando estava quase
amanhecendo ela disse que iria entrar para sua mãe não desconfiar que ela tinha
passado a noite fora. Logo após isso, um selinho de despedida foi o começo de
tudo. Deixei o meu cartão pessoal com ela e disse que se ela quisesse me ver
novamente que me telefonasse.
Não tinha muitas expectativas que ela iria ligar, mas logo na hora
do almoço ela ligou dizendo que noivo iria passar a tarde fora e disse que
queria me ver novamente. Marcamos um encontro num lugar afastado e demos
sequência ao selinho daquela manhã. Dessa vez com longos beijos calientes.
Passamos a tarde conversando e beijando, beijando e conversando. Antes do final
da tarde ela disse que gostaria de me ver novamente e toda aquela coisa que
mulher carente fala quando quer botar chifre no namorado, marido ou noivo.
A coisa acabou sendo mais simples do que imaginava. Ela inventava
sempre que tinha que fazer um curso ou viajar para Sampa comprar estoque para
sua loja de roupas. A cada viagem eram dois ou três dias de lua de mel
antecipada para ela. Enquanto isso, o riquinho de minas que ficasse brincando
com seus karts aos finais de semana sem perceber que estava levando chifre.
Só que essa traição logo teria um final. Ela mesmo assim resolveu casar com ele
e de repente sumiu do mapa. Camila não atendia, não ligava, não dava sinal de
vida. Encarei aquilo como um final infeliz. Curti uma dor de cotovelo como
daquelas que histórias de música sertaneja sempre contam.
Com o verão chegando novamente resolvi passar férias no nordeste
naquelas praias maravilhosas para curar a dor de cotovelo e lá conheci outra
loira de cair o queixo. Filha dum deputado alagoano bem típico da região, essa
garota me fez passar uma das férias mais relaxantes da minha vida. Aqueles
longos cabelos loiros e sorriso aberto e sotaque nordestino, seios fartos,
faziam dela uma escandinava com toques do tempero nordestino. De noite sempre
tinha uma balada ou luau e depois o resto da noite e do dia a festa era na
suíte do hotel que estávamos. Depois de quase um mês de vida mansa voltei
para Sampa e Rose (a alagoana) disse que iria me visitar sempre que pudesse. Na
verdade ela vinha raramente, mas quando vinha era uma Festa de São João com
todos os fogos de artifício que tinha direito.
Nessa época como viajava muito a trabalho e sempre para cidades do
interior sempre arrumava uma ou outra mulher aos moldes da Camila. Uma filha de
fazendeiro ali, uma esposa entediada lá, alguma secretária saidinha alheia
acolá. Assim a vida estava passando naquela época: Unindo o útil ao agradável.
Livre, leve e solto não tinha nada a perder. Só que nenhuma delas era
Camila. Essa sim tinha deixado saudade. Saudade que mataria algum tempo
depois.
Numa segunda-feira como tantas outras lá estava eu trancando no
escritório com aquela pilha de papéis ao meu redor e milhares de telefonemas
para atender. Uma dessas ligações iria mudar o meu dia. Quase no final de
expediente o mineiro riquinho me telefona dizendo que a sua a velha mãe perua
tinha partido dessa para melhor e que mais uma vez ele estava prestes a ficar
mais rico e que precisava dos meus serviços. Eu fiquei feliz, não com a morte
da velha, mas sim com o convite que me possibilitaria de reencontrar com
Camila. Mesmo que não fosse para acontecer nada ao menos teria com certeza a
possibilidade de conversar com ela. Disse ao mineiro herdeiro corno que nos dias
seguintes estaria por lá para ajudá-lo.
Como sempre ele me recepcionou com aquele jeito de que precisava
dum amigo, sequer desconfiava que sua bela esposa tinha passado tórridos
momentos com seu advogado de extrema confiança. Falamos de negócios, da vida,
ele contou sobre o casamento e me perguntou porque eu não tinha comparecido e
muito menos deixado felicitações ao novo casal quando se casaram. Pego de
surpresa por esse detalhe, inventei uma desculpa qualquer e fiquei imaginando
que ali tinha ocorrido alguma interferência de Camila. Os motivos dela não
desejar a minha presença no casório eram óbvios, tão óbvios que achei que ela
sentia algo mais por mim, ou que precisava me esquecer para poder viver ao lado
daquele mocorongo.
Desta vez o mineiro tinha novos planos para sua fortuna. Ele
queria vender tudo que tinha herdado e sair daquela cidade do interior.
Confessou que não tinha jeito nem mais paciência para tocar os antigos negócios
do pai de agrobusiness e que os mercados faziam ele perder muito tempo. Além do
mais, começou a reclamar da sua vida de casado e queria que esposa fechasse o
negócio dela e ficasse apenas em casa cuidado dos afazeres domésticos. Todas
aquelas informações eram valiosas para um cara como eu que naquele momento
poderia faturar alto tendo tino para negócios e propor que o mineiro se mudasse
para São Paulo e levasse uma vida light de empresário badalado em algum ramo
que dependesse de pouco trabalho. Assim ele poderia passar mais tempo com a
esposa, com os futuros filhos, e viver uma vida mansa como nunca tinha pensado
antes. Logicamente foi a idéia que propus para ele, mas não foi a que vendi
para ele. Idéia a qual ele aceitou e deixou-me encarregado de dar inicio para
ele em Sampa. Depois dessa reunião saímos jantar como sempre acontecia em
minhas vistas por lá. Só que dessa vez ele não levou a esposa, mas sim a sua
secretária pistoleira.
Estava evidente que a vida de casado dele estava desde o começo
uma porcaria devido a presença da mãe morando junto do casal e dando palpites
na vida deles. A secretária, que não era boba nem nada, comentou isso comigo
discretamente, sem revelar o caso deles, que estava mais evidente ainda pela
proximidade de ambos. Tornar a secretária amante é uma velha saída para manter
as aparências nessas cidadezinhas sem levantar muita suspeita.
Retornando para São Paulo munido de preciosas informações sobre a
vida pessoal e financeira do mineiro ricaço, a partir disso comprei um
restaurante badalado para ele administrar. Ele adorou a idéia. Achava que
administrar um restaurante grã-fino era simples, ainda mais restaurante
badalado e freqüentado por sub-celebridades em São Paulo. Ledo engano. Ele
passava o dia todo fora de casa, de segunda a segunda praticamente. A esposa,
por sua vez, passava o dia em casa trancada como ele queria a maior parte do
tempo, enquanto ele e sua secretária pistoleira viviam uma vida trabalho árduo
e traição da qual pelo jeito gostavam.
Parecia que Camila a esposa infeliz, ora pela presença da sogra
aporrinhando, ora pelo marido retirando sua liberdade, estaria disposta a
reatar comigo sem a menor dúvida. Era nisso que apostava. Parecia que mais uma
vez a estratégia estava dando certo. Parecia... se não fosse por um detalhe. A
bela alagoana nesse meio tempo tinha vindo morar em São Paulo e estávamos
morando juntos. Não no mesmo apartamento ou casa, mas no mesmo prédio, naquele
mesmo onde havia morado com Valéria e nessa época estava sendo negociado pelos
proprietários. Juntei grana suficiente para comprar o prédio com intenção de
remodelar e tornar mais moderno. Foi exatamente nessa época que eu estava entre
a cruz e espada ou para ser mais honesto estava entre duas loiras de perder o
juízo.
Quando reencontrei Camila era continuava linda e irritada com sua
nova vida. Não conseguia de adaptar a uma vida sem sua rotina anterior, sem
trabalho, longe da família, sem amigos, e estava deprimida. O marido dela pouco
se importava com isso estava feliz com seu restaurante badalado e sua amante
trazida à tira colo. Comecei a sair com Camila como antes, e dessa vez
começamos a fazer planos. Ela iria se separar do marido mala, e eu iria dar um
pé na bunda na alagoana – mesmo a contra gosto. Tinha optado pela loira mineira
que apesar dos pesares devido ela fazer meu coração bater mais forte por ela.
Só que a alagoana parecia não querer largar de mim e propunha que ficássemos
noivos. Ela sabia me fazer ceder e sempre me fazia adiar a idéia de deixá-la
toda vez que transávamos. Passei meses nesse dilema até que Camila bateu o
martelo e sabendo da traição do marido que estava às claras nessa etapa. Com
isso foi meio caminho andando para um divórcio que dava a ela não apenas a
liberdade novamente, mas uma bela fatia do patrimônio herdado pelo mineiro
banana.
Enquanto isso a alagoana continuava insistindo em noivar e tive
que abrir o jogo com ela. Esse dia ficaria marcado na história do meu prédio que
já estava de papel passado no meu nome nessa altura do campeonato. Ao contar a
verdade para a alagoana ela num acesso de raiva quebrou tudo que achou pela
frente. Fez o maior reboliço disse que iria se matar, que iria me matar, que
iria incendiar o apartamento. Pois bem, tranquei ela no apartamento para não
ser testemunha de suicídio, ou vítima de incêndio, mas no final das contas só
tive perdas materiais com um apartamento destruído por uma mulher traída em
fúria. Passei a noite tomando um porre homérico para esfriar a cabeça num bar que
uma amigo tinha nas proximidades. Dormi na garagem do prédio no carro ao sabor
de Jack Daniels e ao som de Led Zeppelin. De manhã fui soltar a doida do
apartamento, ela acordou me deu um tapa daqueles na cara e saiu toda
descabelada para jamais vê-la novamente. Ocorrido isso eu estava com o caminho
livre para ficar junto com Camila sem mais perrengues.
Depois do divórcio ajudei a loirinha mineira montar seu novo
negócio num shopping. Logo sua mãe e irmã obesa vieram morar com ela que estava
cheia da grana. Tudo voltou ao normal novamente dentro do que tínhamos
planejado. Camila livre e desimpedida e eu também passamos a viver um conto de
fadas. Como ela tinha ascendência alemã fomos conhecer a terra de seus
ancestrais e passeamos por todos aqueles pontos turísticos românticos da
Europa. Veneza, Paris, Sul da França (terra de mamãe). Fizemos uma pré-lua de
mel mais uma vez. Era uma vida em grande estilo e cheia de sonhos como nunca
antes eu havia conseguido conceber.
Sonhos que terminaram em recordações, ceifados por um acidente de
carro que levou Camila e sua mãe que dirigia o carro numa noite de chuva. A
viagem tinha um motivo especial. Tratava-se duma visita que iriam fazer aos
parentes mineiros por ocasião do no nosso noivado para convidá-los. Naquela
ocasião não pude ir junto delas por compromissos de trabalho. A irmã dela tinha
ficado para cuidar do bebê que ela havia tido com o ex-marido. Ao receber a
notícia pela manhã no escritório eu desabei. Fiquei horas e horas fora do ar,
sem saber o que fazer, como agir, mesmo sendo obrigado a ter que tomar algumas
providências devido ao fato eu estava fora de mim. Ainda mais pelo fato dela
estar esperando um filho nosso.
Repentinamente o meu mundo congelou. Ficou frio e sombrio. Levou
tempo para tudo voltar ao normal, como tudo tem que ser depois de fatos como
este. Mas a vida seguiu em frente.
Hoje em dia olhando para
trás vejo que naquela época eu estava num desses altos e baixos que a vida nos
leva a passar. Em termos
profissionais estava começando a me estabelecer com certo sucesso e ousadia no
mundo dos negócios. Tinha diversos contatos e oportunidades de empreendimentos onde
enfiava grana com retorno garantido. Desde daquele primeiro negócio imobiliário
do qual recebi uma gorda fatia devido ao meu talento em saber como lucrar e
conjuntamente de outros negócios paralelos eu já estava com o patrimônio quase
triplicado. Aquela certeza arrogante de que era uma pessoa inatingível pelas
coisas ruins e de que tudo era perfeito talvez se devesse ao sucesso subindo a
cabeça em muitos momentos. Naquele momento que conheci Camila tinha vinte e
quatro anos, quando ela faleceu já estava quase com vinte e seis e parecia que
tinha vivido décadas. Uma idéia me deixava dividido durante a época em que tudo
estava vento à favor em nossa história. Por realmente amar ela estava disposto
deixar qualquer rabo de saia de lado e ter uma família e trabalhar para ter
ainda mais sucesso nos negócios. De um lado parece que aquele lado tradicional
tão prezado pela minha mãe tinha vindo se instalar na minha vida, mas por
outro, parecia que estava me tornando como meu pai e odiava essa idéia de algum
modo.
As semelhanças do destino
de ser um jovem bem sucedido com uma bela esposa e uma família me fazia crer
que algum dia no futuro eu fosse capaz de destruir um lar tão bem construído
com afeto, e devido ao temperamento e conduta de mulherengo um dia magoasse
muita gente. Essa era uma cortina de fumaça que muitas vezes passava pela minha
imaginação e me causava certo temor. Não queria cometer os mesmos erros dele,
nem ser como ele nisso, simplesmente por saber o custo disso para os outros.
Nessa
época olhava para o passado recente e via Camila como tudo que precisava e
desejava. Uma bela esposa, de alma leve que gostava de música artes, que tinha
um jeito doce de lidar com todos e possuía todos os encantos e atributos duma
mulher sedutora que dificilmente outra qualquer poderia fazer frente. Todos os
dias de manhã aquele sorriso límpido e musiquinhas cantaroladas por ela me
davam certeza que apesar dos meus mais duros temores tudo daria certo e que
seria possível driblar os espinhos e colher ramalhetes de flores. Pensava em
Karen como uma paixão que não deu certo por diversas causas, mas que me levou a
acreditar que dentro de mim havia a capacidade de amar muito maior do que
apenas se divertir com as mulheres. Olhava para o rumo da vida de Valéria e via
que ela nunca fora a mulher certa, estava prestes a se casar novamente como um
sujeito que mais tarde iria a trair e deixar ela com mais um filho nos braços,
e depois disso ela arranjaria mais dois namorados, os quais não aturaram os
seus caprichos e abandonaram.
Já
eu tinha uma princesa na minha vida, cheia de encanto e o amor estava no ar que
respirávamos. Não havia o que temer, o futuro se desenhava repleto de coisas
boas. Só que, sabe-se lá porque, o destino daquela vez não quis fazer tudo isso
se realizar e quando Camila se foi, para sempre, aqueles sonhos murcharam como
flores que não foram colhidas. Passava os dias no escritório e naquele
apartamento olhando a chuva na vidraça, entre um cigarro e uma dose e outra,
afundava numa poltrona todos os finais de tarde e não entendia o sentido de
tudo duma hora para outra estar tão bem e na outra tudo se esvaziar e perder o
sentido. Nesses dias percebi que tinha amigos por perto, desde o meu sócio
Marcos que segurava as pontas na empresa até mesmo minha irmã que aparecia me
visitar e encorajar. Quando as crianças vinham me visitar, em especial o Quim
percebia que tinha muito a fazer. Aquele garoto estava gordo de tanto jogar
vídeo-game e falante, tinha sete ou oito anos e comecei a ensinar ele jogar
bola, futebol e golfe e alguma coisa de karatê. Essas coisas mantinham ele
sabendo que apesar do padrasto mais presente, faziam ele confiar num pai que
mesmo distante tinha ele em alta conta. Regina morava no EUA com Marie, nas
férias ela se mostrou uma boa amiga e olhando para nossa filha até fiquei
tentado a pensar em recomeçar algo com ela. Só que isso não fazia sentido
também e aquela dúvida sobre ter outra filha com Ágatha muitas vezes me
atormentava e eu não estava disposto a saber se aquilo seria apenas um devaneio
da minha parte ou verdade.
Julgava-me
como um irresponsável em certas horas por ter feito coisas por impulso e ao
sabor dos momentos. Por outro lado queria aceitar as consequências de todas
elas e entender o que se passou e passava de imediato; só que isso não era
possível. Cada um estava longe vivendo sua própria trajetória e a vida deles
estava toda bem ajustada naquele tempo, enquanto a minha estava bem estranha
devido a morte prematura de Camila. Ao passo que tentava acertar as contas
comigo mesmo de forma quase inútil, alguma coisa pedia para ir em frente e
esquecer todas as preocupações do passado e presente. O que importava seria o
futuro que me esperava como meio de fazer algo além de todas essas coisas fora
de controle e tudo que tinha ficado para trás duma hora para outra.
Dessa forma, após a morte de Camila tudo perdeu o sentido por
certo tempo. Ao invés de tentar pensar no assunto ou desabafar repetidas vezes
com alguém próximo e sempre receber os mesmos conselhos bondosos, passei a
preferir ficar trabalhando muito e lidando com essa perda ao meu modo. Parece
ser frívolo optar por mergulhar por horas a fio dentro dum escritório e passar
dias tentando não pensar no fato ou sempre ao final do dia passar horas e horas
em companhia dum maço de cigarros e uma garrafa de bebida até o ponto que a dor
fosse anestesiada ou abafada na memória.
Já dizia algum poeta que o ser humano às vezes aspira retomar a
harmonia e equilíbrio cortejando a insanidade, para que em algum momento as
coisas voltem ao status quo. Fazer isso era uma forma de evitar a necessidade
de decidir sobre o que fazer, sem ter que olhar para trás e reverenciar o
passado aprendendo alguma lição. Com isso é natural que se atravessasse o
presente com os olhos vendados, inerte para muitas coisas que por mais simples
que sejam. Naquele momento nada tinha o mesmo sabor de antes. Talvez seja por
isso que ao procurar pelo excesso de ocupação e evitar pensar no assunto, isso
não surtia efeito, pois ainda se revive o fato, e faz com que tudo se torne
mais assombroso e sem solução para aquela ferida.
Passando dias e mais dias numa mesa atolada de papéis, tentando se
esquivar de tudo que fosse recordação, os dias começaram a passar lentamente,
como se houvesse um peso que diminuísse a velocidade de tudo. Já nas mesas dos
bares, o tempo voava, era como se tudo aquilo que durante o dia se movia com
lentidão resolvesse correr e fugir do controle.
Numa situação dessas logo fiquei barbudo, com ares de desleixo, de
falta de ânimo, sendo tratado com certa piedade por alguns e deprimido por
outros, isso me enjoava mais ainda, a ponto de precisar tirar umas férias
daquela rotina de casa para o trabalho, e do trabalho para os bares. Fui
me refugiar na fazenda pescar uns tempos, jogar conversa fiada com
desconhecidos em bares em outro lugar, passei dias vagando por lugares que nem
sei quais são até hoje. Regado a muito álcool e fumando mais do que
nunca. Não estava fora de mim, pelo contrário, tinha me enterrado em mim
mesmo. Pensava nas garotas do passado, em todas elas, lembrava o que cada
uma tinha de melhor e pior, sabia que elas talvez nem mais pensassem em mim, e
que quase todas estavam casadas e com seus filhos, suas vidas perfeitas em
algum lugar. Enquanto isso, eu queria encontrar alguma espécie de paz e alento
em alguma coisa. Dispensava todas as candidatas que queriam se tornar minha
próxima namorada ou até esposa. Não via nelas nada que me agradasse, apesar da
beleza de algumas e jeito doce de outras, nenhuma delas tinha algo que fosse a
soma de todas as outras que haviam passado pela minha vida ou cama.
Na
fazenda até tive um caso passageiro com uma adolescente, filha dum caseiro ou
algo assim. Aquela pele morena dela, olhos castanhos e cabelo de indiazinha até
a tornavam uma atração e tanto para qualquer homem, mas aqueles mesmos
trejeitos e manias irritadiças duma Ana Lúcia, Ellen e Valéria não me faziam
mais a cabeça. A tal Talita uma mocinha como tantas outras que está num lugar
provinciano à espera dum partidão que a tirasse dali. Até que fiz isso por ela,
mas não prossegui com o relacionamento com ela por motivos óbvios já citados.
Ajudei aquela bela criatura a sair dali e tomar um rumo na vida em troca dos
momentos de prazer que tinha dado e nada mais. Hoje em dia ela sumiu,
desapareceu e com certeza deve ter tomado o mesmo destino das outras.
Voltei para casa de minha mãe, e numa conversa séria no meio da
madrugada na mesa da copa falei tudo que deveria ser dito para me livrar
daquilo, com todos os pingos nos is, com todas as verdades, nada fora esquecido
ou varrido para debaixo do tapete. Olhei para o rosto dela e não vi nenhuma
condenação ou aprovação, apenas percebi que havia compreendido a dor dum filho
que precisava limpar aquela ferida como antes, quando era criança e nossas mães
passavam merthiolate nos machucados. Ardia mas sarava.
Ela disse tudo que se diz nessas horas. Coisas que só fazem
sentido quando resolvemos ouvir calados. No fundo mamãe me deu a saída daqueles
tempos sombrios, mas essa saída só se entende quando se passa por uma fase de
reconciliação consigo mesmo. Acho que mamãe sabia que era preciso me convencer
a voltar a ser como era antes. Ela sugeriu que voltasse estudar no exterior ou
passar um tempo longe de tudo que trouxesse recordações insistentes e
massacrantes. Que retomasse alguma coisa ou fizesse algo novo. Disse que isso
iria me fazer bem. Certamente fez. Alguns meses depois eu parti para Portugal
estudar e trabalhar, o destino: Coimbra.
Ao chegar naquela terra, não me deparei com portugueses
intrometidos como eram os pais da minha primeira esposa. Encontrei pessoas
comuns e banais, cuja vida era recheada por tradições e muitos banquetes que
tardavam a terminar. Ao pisar lá, passei dias andando pelos arredores da
cidade, conhecendo pontos turísticos, experimentando novos sabores e tomando
porres de vinho dos bons vinhos da terrinha. A bebedeira deixava de ser por
causa das dores de outrora e passava a ser a cada empreitada etílica num brinde
aos novos dias. Troquei os cigarros por charutos, os mesmos preferidos por Tio
Ali, os quais gostava de baforar no Parque Mondego a beira do rio. Troquei os
ternos alinhados por um avental de padeiro e fui aprender a fazer pães e doces
numa padaria onde o meu mestre confeiteiro era um angolano que me tratava como
velho amigo. Ficar apenas estudando não estava nos planos. Eu precisava manter
a cabeça cheia para me livrar não ficar relembrando coisas do passado.
Instalei-me depois disso nos fundos da casa duma velha viúva portuguesa, amável
ou intratável conforme fosse a fase da lua.
Em breve a temporada de estudos começaria e eu que tinha deixado
muita coisa para trás não sentia medo ou falta de mais nada novamente. Aquela
cidade cheia de gente jovem e alegre me contagiava como uma nova droga. Passei
a viver dias numa rotina repleta de afazeres novamente. De madrugada acordava e
às quatro horas e como um monge lá estava eu religiosamente com a farinha e o
forno da padaria como as primeiras companhias do dia. Junto disso a cantoria
desafinada daquele angolano que a cada fornada nos fazia parar e dar umas
baforadas nos charutos. Aquilo tornava o romper do dia num ritual
divertido.
Após isso, frequentava as aulas que duravam longas horas. Após as
aulas uma soneca em qualquer canto me preparava para alguma farra regada a
vinho e muita sardinha. Quase sempre com um violão por perto dedilhando fados
ou tocando aquilo que nos desse na telha. Voltava para os fundos da casa de
dona Áurea e quando ela estava acordada ainda dava um dedo de prosa com ela e
tomava aquele chá de ervas misteriosas que servia para evitar ressaca. Exausto
despencava na cama e não tinha tempo nem energia para pensar em qualquer coisa
que me retirasse a paz novamente.
Outro dia nascia e a mesma rotina se seguia. Até que numa
manhãzinha qualquer apareceu no balcão da padaria uma mulher, belíssima, morena
de olhos amendoados castanhos claros, cabelos negros lisos e lábios carnudos.
Ela tinha um leve sotaque francês e ainda tinha aquele corpinho de menina
apesar de ser casada. Era a esposa dum velho marinheiro a qual ele trouxe do
Marrocos. A boa fama não precedia a beleza daquela mulher, pois os comentários
locais eram de que o marido batia nela, e ela para se vingar traia o marido com
qualquer rapazola da universidade. Aquela história indecorosa ficou martelando
na minha cabeça como se fosse uma obsessão. Cada vez que a via queria ajudar ela
se vingar do marido. Caso ela aparecesse com o olho roxo seria perfeito, pois
teria motivos de sobra para ser mais um na sua lista de adultério. Não foi
preciso isso, por ironia do destino mais uma vez o francês caseiro me ajudou em
alguma coisa.
Domingo de manhã, eu fiz questão de atender aquele pedaço de mal
caminho, e disse em bom francês: Boun jour madamemoiselle! Ela se surpreendeu e
retribuiu o cumprimento com um sorriso e curiosa perguntou em francês de onde
eu seria para falar tão ilustre idioma. Era a brecha que eu precisava
para me tornar alguém que caso ela viesse trair o marido mais uma vez fosse
digno de atenção. Entretanto, não foi preciso aguardar uma nova surra dele para
que isso ocorresse. Semanas depois o velho marido dela numa briga de bar tinha
levado uma sova que por conseqüência deixou ele vegetando no hospital até ter
uma morte que se tornaria lendária na cidade.
A mais nova viúva da cidade parecia não ter se abalado com isso, e
continuou sua rotina de comprar pães normalmente no dia seguinte ao funeral.
Restava saber se ela continuaria com o hábito de levar para seu leito os
acadêmicos. Muito antes do que esperava a minha obsessão indecorosa seria
saciada.
Numa semana que chovia muito, a viúva marroquina perguntou-me se
eu faria a gentileza de entregar para ela um bolo ao final da tarde caso
estivesse chovendo. Ela mencionou que iria receber visitas e nada mais. Horário
combinado, encomenda feita, só dependia da chuva não falhar. Naquele dia
não choveu mais nenhuma gota, o sol despontou no céu e as nuvens sumiram, mas
fiz questão de adiantar o horário da entrega. Ao chegar na casa da viúva
marroquina ela atendeu-me com um sorriso meio envergonhado, mas logo os pudores
dela acabariam. Pediu para entrar e logo disse que a visita que ela esperava já
tinha chegado. Perguntou se eu poderia levar o bolo até o jardim nos fundos. No
jardim só havia flores, e uma mesa com algumas xícaras e bule de chá típicos do
Marrocos. Fiquei ali parado, enquanto ela não aparecia, e a visita também não.
Alguns minutos depois a fogosa viúva surgia emoldurada pela porta
que dava para o jardim, estava com uma roupa mais leve e sensual e percebia que
havia se maquiado às pressas devido o batom meio borrado. Naquela hora agradeci
aos céus em bom francês, enquanto ela disse para me sentar e servir-me do meu
próprio bolo de nozes. Eu que naquele dia tinha matado aula e ficado na padaria
de prontidão especialmente para fazer aquela entrega estava ainda com farinha
no cabelo e nas roupas, e ela num gesto de pura bondade que apenas as viúvas
fogosas possuem resolveu me dar um banho em sua banheira.
Passamos o final de tarde naquela banheira e na cama do falecido
fazendo amor até a hora do jantar. Nunca falei tanto francês na vida com tanto
prazer! Ela se levantou nua, e permaneceu nua na cozinha preparando o jantar.
Nunca antes tinha me deparado com algo assim e fiquei tal como ela, nu sentado
a mesa apreciando aquele par de coxas grossas e bumbum moreno de um lado para
outro na cozinha. Jantamos nus, e demos início à sobremesa no chão da cozinha.
Passei os meses seguintes a fazer mais entregas como essa. Faça chuva ou faça
sol, os finais de tarde eram ali na casa daquela viúva das arábias, digo, do
Marrocos.
Dona Áurea suspeitava que eu tivesse alguma namorada, e começou a
insistir para conhecer a fulana misteriosa. A velha tinha notado as noites que
passava fora sem voltar para casa e quando revelei o segredo, e quem era a
minha amante, ela passou do estado de imaginar um belo romance entre dois
estudantes para um sermão contra o caso amoroso indecoroso. Não fiquei
comovido por isso, afinal nenhuma outra mulher ali havia cedido aos meus
encantos e cantadas fúteis. Havia algo além disso, Layla, a viúva, apesar do
temperamento brutal do marido gostava dele, assim como eu amava Camila com seu
jeito doce e leve, logo nossas confidências pessoais criavam certos laços de
compressão apenas possíveis para pessoas que tinham vivido coisas semelhantes.
Ela tinha conhecido o falecido num porto marroquinho e por desejar sair da
casas dos pais enamorou-se com o marinheiro e casou-se com ele. Isso me trouxe
lembranças de Talita, pois além de belas morenas a história era parecida. Com o
passar do tempo descobriu que a bebida transformava o marido num sujeito de
difícil trato em certas ocasiões, mas nunca cogitou deixá-lo por ser seu
primeiro amor.
As traições dela faziam sentido, pois quando apanhava do marido
embriagado logo ele também partia para o mar novamente e ela passava alguns
meses solitária e buscava nos braços de estudantes ou atletas da Acadêmica seus
amantes. Ela gostava de homens viris e sedutores, dizia que seu marido apesar
de grosseiro era assim também. Trocávamos tais confidências na cama a com o
luar iluminando nossos rostos e tudo aquilo sem dúvida era uma sessão de
terapia muito melhor que qualquer outra. Psicóloga alguma poderia entender
melhor um rapaz que aos vinte seis anos já tinha sido pai de dois filhos, e
perdido uma mulher que amava num acidente trágico. Assim como, acredito que,
ela se sentia a vontade para se abrir comigo como nunca tivera feito com nenhum
outro acadêmico antes de mim devido a morte de seu esposo.
Noites assim eram corriqueiras entre eu e Layla, e certamente
explicar isso para dona Áurea não teria propósito, pois seu temperamento
conservador e severo não entenderia os nuances dessas relações. Descobrir a
história duma mulher como descobri a de Layla e de tantas outras, demanda tempo
e proximidade, ou duma cumplicidade sui generis que existe apenas entre
amantes. Dona Áurea uma viúva que usava chale negro em sinal de respeito
perpétuo ao marido morto e recusava-se a usar maquiagem desde que o marido
havia morrido, talvez jamais compreenderia que certas feridas da alma são
curadas pelo corpo e pela alma de outra pessoa em contato com a sua. Essa
lógica dos amantes que possuem algo em comum era o que explicava a minha
profunda relação de mão dupla com Layla: Havíamos amado e traído nossos amores
sem deixar de amar cada um deles por nenhum segundo.
A cada separação que tive ou a cada ida do velho marinheiro ao
mar, ambos se perdiam e se achavam nos braços de alguém que nos consolava, ou
que recriava e tornava o ardor pela vida mais uma vez um sonho. Não tínhamos
que guardar na memória, tal como Dona Áurea fazia, recordações duma única
pessoa amada, sendo que era possível amar a quem nos fizesse feliz por mais
fugaz que fosse a paixão vivida, essa paixão nutria nossas vontades de viver e
seguir em frente apesar das dores e feridas que nos causam o mundo e as
pessoas.
Ter encontrado tanta compreensão, generosidade e carinho nos
braços de Layla, me tornava menos precipitado para julgar as atitudes de muitos
ao meu redor, me dava mais uma lente para olhar cada pessoa em suas peculiaridades
e desejar conhecer o encanto e mistério de cada uma delas. Passamos aquelas
noites sempre refletindo juntos sobre isso, e quando ela chegava a alguma
conclusão ela dançava como odalisca e mostrava como uma mulher poderia manter
uma vida a dois, apesar de todos os deslizes do casal, sempre feliz por haver
sempre um novo recomeço.
Depois de meses ali de noites abrasadoras regadas a vinho do Porto
e guloseimas portuguesas, Layla me convidou para ir com ela nas férias para sua
terra natal. Pegamos o barco que o velho marinheiro tinha deixado como herança,
e em companhia de alguns marujos, seguimos pela costa de Setúbal até Sagres e
Gibraltar depois até Rabat. Passamos quinze dias passeando e findando aquele
romance. Logo que voltei para Coimbra ela já havia se mudado para França e por
lá permanece até hoje sem dar notícias. Nos despedimos como qualquer casal de
namorados se despede, ao não ser pelo fato da despedida ter sido em Casablanca.
Rumei ao Brasil matar a saudade, da mamãe e dos filhos. Ninguém mais tinha
tanta importância depois daquela temporada em Portugal, a qual fez a alegria
triunfar sobre a amargura e a esperança sobre o desespero. Uma coisa posso
dizer: Coimbra mon amour é para poucos!
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