Um certo aventureiro japonês disse que preferiria levar uma
vida intensa e curta do que uma vida longa e monótona.
Essa frase sempre teve para mim um doce e apimentado
significado radical de que a vida não pode ser desperdiçada de forma alguma e
deve ser repleta de aventuras.
A primeira aventura pessoal em terras estrangeiras que me
recordo com bastante nitidez é duma viagem que fiz com minha mãe aos sete anos,
com ela dirigindo do interior de São Paulo até Buenos Aires e depois La Plata.
Seria mais fácil ir de avião ou outro meio, mas ela decidiu corajosamente fazer
um tour de Belina até lá onde iria fazer um curso na universidade local.
Passamos um mês por lá, justamente o mês em que a Argentina
de Don Dieguito ganhava a Copa do Mundo e toda a cidade estava a mil e em
festa. Até ganhei uma camisa da seleção argentina que guardo como recordação.
Uma das paradas dessa viagem foi em Santa Catarina para
visitar uma tia que morava por lá. Lugar muito bonito e naquela época o frio e
aquelas casas de madeira típicas de lá tinham gelo grudado até na porta pela
manhã. Foi lá que comi o maior sanduíche da minha vida um x bancon gigante
regado a minuando.
Depois disso pegamos a longa estrada escutando muito Elvis e
Beatles no toca fitas. Por incrível que pareça mamãe não tomou nenhuma multa,
até porque sempre andava no limite de velocidade – ao contrário do meu pai que
corre até hoje pelo menos a 140 km. Isso nos custou muito tempo na estrada e
nas paradas em postos ela sempre me impedia de comer alguma coisa que julgava
“suja” dessas biroscas de beira de estrada.
Chegando na Argentina a primeira impressão que tive foi de estar
em outro planeta com aquele pessoal hablando espanhol. Ficamos hospedados
num hotel bem legal que era perto dum parque e sempre que minha mãe tinha aulas
eu ficava brincando com os filhos duma amiga dela que residia por lá. As minhas
primeiras lições de espanhol foram com Rico e Vivi filhos dessa amiga da mamãe.
Rico era magrelo e moreno ao contrário da loirinha de olhos
azuis e gordinha Vivi que ficou sendo minha namoradinha naquela estadia por
ali. Rico era fanático por futebol torcedor do Estudiantes e logo fez minha
cabeça para torcer pelo time dele. Já Vivi tal como a mãe dela e a minha que
são uma jornalista e outra professora de literatura adorava livros e gostava de
ler seus contos para nós. Passávamos a tarde brincando, comendo muito alfajor e
media lunas, e até rolava uma bitoquinha na Vivi uma vez ou outra.
Certo final de semana o pai deles Juan nos levou ao clube
local onde ele jogava golfe e sem sombra de dúvida foi ali que começou minha
paixão por este esporte. Voltando ao Brasil uma das primeiras coisas que
fiz foi pedir de presente tacos e bolas de golfe para praticar no carpete do
meu quarto ou no jardim da casa.
O dia mais memorável foi o dia que a Argentina se sagrou
campeã do mundo, todos saíram as ruas e aquele buzinaço dos carros era geral.
Depois de mais ou menos um mês por ali fizemos o trajeto de volta passando pelo
Paraguai onde compramos um rádio amador que instalamos no carro e na viagem de
volta passei inteiramente cambiando com caminhoneiros pelo rádio para me
distrair da monotonia da estrada.
Depois disso, em casa a vidinha voltou ao normal. As férias
tinham acabado e na escola eu tinha mais histórias para contar que qualquer
outro moleque que tinha passado férias na casa da vó assistindo TV e torturando
gatos da vizinhança ou dando estilingadas em pardais pela rua.
Anos a fio voltamos para Argentina algumas vezes mais, e
sempre que posso ainda vou para lá até hoje. Me sinto em casa por lá. Adoro os
vinhos malbec o churrasco e as belas argentinas naturalmente. Por falar nisso,
me recordo até hoje de Vivi com carinho como se ela fosse minha primeira
namoradinha. Ela continua gordinha até hoje e quase nunca mais nos falamos.
Ao retornar para o colégio - acho
que estava no primeiro ano primário - a rotina voltou ao habitual. De manhã
passava fazendo lição de casa sob pena de não poder sair para brincar na rua ao
final da tarde. Após o almoço ia direto para escola, e ficava lá em mais horas
estressantes de estudo e algumas travessuras com colegas. Devido essa
convivência em colégio público com a molecada mais baderneira fui ficando cada
vez mais levado dentro da casa também. Coisa típica da idade. Se antes eu era
mais passivo as ordens da minha mãe e irmã, com o passar dos meses fui ficando
mais próximo do estilo do Tony em termos de desobediência e travessuras. Em decorrência disso tive o mesmo destino que
ele havia tido anos atrás: Fui parar num colégio interno por alguns meses. Meus
outros dois irmão também tiveram o mesmo destino, mas eles estranhamente
gostavam da idéia e tinham boas recordações, enquanto Tony praguejava e me
incutia temores sobre a vida naquele antro de velhas virgens.
Aquela idéia era odiosa para mim,
pois ficar longe de casa, sem poder freqüentar a rua, sem ter liberdade de
escolher um desenho animado na TV ou dormir fora de hora era como uma
condenação prisional para mim. Ainda mais por ser num colégio católico daqueles
regidos por irmãs de caridade nada caridosas, as quais mais pareciam pingüins
de geladeira com faces carrancudas que exprimiam magras faces possivelmente
devido passar fome e fazer jejuns. Nem todas eram duronas e amargas, em
especial as mais magras eram as mais chatas e as mais gordinhas as mais
generosas e simpáticas. Deve haver uma teoria que explique por pessoas gordas
são mais felizes na vida religiosa de forma específica, pois eu testemunhei
isso de fato.
Fiquei um trimestre nesse
colégio. Nas duas primeiras semanas fiquei indignado, de beiço, enervado por
estar ali recluso em meio a crucifixos, santos, rosários e regras e horários.
De manhã um desjejum e Missa, na qual pegava novamente no sono devido as ladainhas.
Depois aulas com professoras mais tradicionais do que a minha própria mãe e
mais exigentes que dez iguais a mesma. Era um martírio, os dias eram longos e
entediantes. Das rezas aos estudos com aquelas crianças de uniformes vermelho e
branco de rostinhos angelicais e tão conformadas aos professores carrascos e
freiras carrancudas tudo me dava aflição. Sim, era minha penitencia por ter
sido levado além da conta e respondão. Paguei com juros cada dia que não tomei
banho, cada vez que não cheguei na hora certa do jantar por ter ficado mais
tempo na rua brincando e por cada lição de casa mal feita. O purgatório
infantil tinha um nome: Colégio Marista.
Certa manhã, numa dessas missas
foi lida a passagem que Jesus expulsava a chicotadas os vendilhões do templo.
Aquela narrativa de Nosso Senhor Jesus Cristo armando um chicote e botando pra
quebrar me deixou crente que o cristianismo era realmente uma coisa boa. A
explicação disso era simples: O sujeito estava inconformado com algo e resolveu
descer o chicote em todos àqueles que estavam aprontando algo contrário às suas
próprias convicções. Então, munido com esse espírito cristão passei a lutar
contra a minha estadia ali naquele “infernato”. Não fiz um chicote, nem meti o
pé nas freiras magricelas, mas passei a ser eu mesmo apesar das inúmeras
repreensões por indisciplina. Passei a admirar Dom João Bosco que dizia que a “natureza
humana é feita para o equilíbrio: não sufocar a liberdade nem, muito menos,
permitir uma indisciplina desenfreada”. Usei isso como argumento para cavar a
minha retirada dali prometendo para minha mãe que seria um bom menino se me
libertasse do internato. Ali já se expunha a minha facilidade para argumentação
retórica digna de advogados cheios de lábia e com tino para obter bons acordos.
Assim que voltei para casa tudo
voltou a ser como antes, no lugar das rezas diárias, muitas brincadeiras de rua
e reencontro com os amigos que achavam que eu estive doente naquele período de
ausência forçada das nossas conversas de meio fio. Não estava mais na companhia
de freiras rígidas e nem daquelas crianças pré-moldadas, estava livre leve e
solto mais uma vez. Tudo era festa mais uma vez.
Por falar em festa... No final
daquele ano minha irmã iria se casar e haveria uma festa como manda o figurino.
Desde casamento na Igreja, vestido branco de cauda longa, parentes a rodo vindo
nos visitar, e o melhor: Muito bolo e brigadeiro. As guloseimas eram o
que unia ainda mais eu e minha prima Karen que também a princípio era a minha
melhor amiga naquela época. Sempre estávamos juntos, nessa fase mais do que
antes desde que eu havia retornado do internato. Parece-me que a saudade tinha
batido forte em ambos, pois ela sempre me escrevia cartinhas e às vezes vinha
me visitar junto com minha irmã e mãe aos finais de semana. Foi nessa festa,
que eu e Karen começamos nos camafeus e brigadeiros e depois fomos parar nas
batidinhas de vinho até tomarmos um pileque e passarmos mal. Aliás, nessa festa
além do meu primeiro porre, houve também a minha primeira, por assim dizer,
crise de ciúmes, em virtude do meu primo Daniel ficar o tempo todo grudado com
Karen e abraçando ela e tentando beijá-la. A minha reação foi obviamente tentar
tirar ele de perto dela, e fiz isso irritando ele ao extremo chamando ele do apelido
que ele odiava: “Danete”.
Isso foi tirando ele do sério e
do lado da Karen consequentemente, até o ponto dele vir me agarrar e dar alguns
socos que revidei. Naquela época eu pude usar alguma coisa das primeiras aulas
de karatê que tive com meu irmão Tony e causei o maior reboliço entre minha tia
e mãe devido ter socado o pobre moleque por ciúmes. Depois disso Karen e eu
passamos a tomar as tais batidinhas de vinho com leite condensado, e quando
estávamos rindo à toa ela me deu um beijinho. Certamente depois passamos mal e
isso deixou além de mais uma tia furiosa, deixou ainda minha mãe mais revoltada
comigo e me colocou de castigo durante a semana seguinte, mas valeu a pena.
Durante as festas de final daquele ano reencontrei Danete e fizemos as pazes e
quando nos recordamos disso damos boas risadas.
No ano seguinte, a minha vida
iria mudar um pouco devido ser transferido para um colégio particular. Eu
sempre achei o ambiente escolar um lugar cheio de boçais energúmenos e ainda mais
no tocante a escolas particulares. Continuo a achar isso até hoje numa dose bem
menor. Embora seja filho de professora e embora minha irmã seja professora de
dança que são outros quinhentos. Além disso, o horário iria mudar radicalmente,
pois estudaria de manhã mais uma vez como no internato. Odiava acordar cedo,
tomar sucrilhos na marra e ter que ir para o colégio. O gosto da pasta de dente
era amargo, tirar o pijama era um suplício, carregar aquela mochila do GI Joe
era foda também.
Sinceramente eu preferiria ficar em casa dormindo acordar na
hora do almoço e comer batata frita e brincar com o cachorro. Tanto em casa
como na escola eu procurava por livros também. Em casa minha mãe tinha uma
vasta biblioteca com bons livros, já a escola tinha aquelas rodas de leitura e
uma biblioteca cheia de poeira ótima para rinite. Eu matava muita aula e ficava
lendo esses livros empoeirados da escola muitas vezes. Isso quando não pulava o
muro do colégio e saia passear pela cidade até a hora do final das aulas.
O que eu gostava mesmo era ir com minha maninha na escola de
dança que ela dava aulas e fazia concurso para ver qual o pé de bailarina mais
feio e o mais bonito junto a Lulu nossa vizinha que era aluna da minha irmã.
Recordo que minha irmã tinha um amigo gay que era bailarino. Sujeito até
engraçado, magro como um cabo de vassoura, falava daquele jeito afetado,
desmunhecava muito, e ficava dando palpite no look das meninas. Era uma bicha
simpática. Hoje em dia a biba é funcionária pública e até concorreu a vereador.
Lulu era uma daquelas garotinhas certinhas e insuportáveis,
certinha demais, magricela, cabelinho preto com franjinha. Era obrigado a ir na
catequese com ela onde sempre implicava com uma moreninha por ela não saber as
lições. Ela tinha tudo para ser freira, tinha todos os requisitos de
implicância suficientes para dar lições de moral homéricas em qualquer pecador
não arrependido.
Quando fomos escolhidos para sermos coroinhas naquele ano era
uma algazarra. Eu embora não estivesse nem aí para religião adorava vestir aquela
roupinha e nem ligava em ter a bochecha apertada pelas carolas que sempre
faziam bolos e salgadinhos naquelas festinhas de igreja. Eu tinha certo
status, era prestigiado, não estava nem aí para a reza, mas sim para os doces e
quitutes que eram servidos para nós e ser coroinha me dava direito a comida de
graça.
Como minha mãe era também professora, por sorte em outra
escola, eu era exigido nos estudos como piloto de formula um. Tinha que sempre
melhorar as notas assim como os pilotos eram cobrados para melhorar seus tempos
na pista. Mamãe sempre muito enérgica e exigente e aliada a minha irmã que
também era muito autoritária me faziam viver numa verdadeira ditadura do
estudo. Só tinha liberdade depois que a tarefa de casa estava completa e depois
de inúmeras obrigações extracurriculares como aulas de piano e idiomas. Com
isso feito ganhava liberdade condicional para brincar na rua.
Como havia dito, na rua as brincadeiras já estavam perdendo
um pouco de espaço para os Ataris da vida, mas era sempre bom respirar ar puro,
soltar peão, jogar taco, empinar pipa e outras brincadeiras. Nessas horas Alex,
irmão da Lulu, e eu éramos quem comandávamos a nossa rua nessas brincadeiras.
Ditávamos às regras éramos os caras que tinham moral para mandar no restante da
galera.
Certa vez fomos na casa da avó dele uma senhora daquelas bem
habituais na época. A velha era aposentada e sempre que precisava sair para
sacar sua aposentadoria Alex e eu cumpríamos a tarefa de levar a velha manca
para tal obrigação e em troca ela nos pagava sorvete. Na referida vez que fomos
na casa da avó dele, a velha estava as voltas com sua dentadura, a qual ela
queria que ficasse bem limpa e brilhante para não passar vergonha ao
cumprimentar outros velhotes aposentados na fila.
Num momento de genialidade maligna e travessura infantil, eu
e Alex dissemos para ela passar margarina na dentadura e deixar no sol que isso
deixaria a dentadura muito brilhante e limpinha. A velha confiante no conselho
de dois sábios garotos tão prestativos não hesitou em fazer isso. Passou uma
bela colherada de Delícia na dentadura e colocou num prato ao sol. Depois
disso, quando a margarina já tinha efetuado seus efeitos de brilhantina dental
ela colocou a dentadura, olhou no espelho, sorriu e atestou alegremente: É
verdade fica bem brilhante mesmo! – Ocorre que devido a margarina a dentadura
ficou escorregadia e certa hora quando ela conversava com um senhor na fila a
dentadura saltou da boca da velha e caiu numa daquelas bituqueiras de cigarro.
O vexame da coroa foi imenso, mas a minha diversão e a do meu comparsa foi
garantida. Sem dúvida Alex descobria ali uma vocação profissional, pois
tornou-se dentista e para quem sabe pagar a pena de ter feito sua avó de cobaia
hoje mora com a sogra a qual certamente explora ele fazendo-o cuidar da
dentição de naja da mesma.
Como disse a escola era um porre e as aulas enfadonhas. Eu
era obrigado a sentar na frente e ficar perto da mesa professora devido usar
óculos. Aquele belo óculos fundo de garrafa. Era o segundo da fileira. Na minha
frente se sentava a menina mais bonita da classe uma loira de cabelos dourados
olhos claros que cheirava a sabonete Pom-Pom. As vezes me distraia fazendo
trancinha nela e ela adorava isso. Era uma das poucas alegrias de estar naquele
lugar, pois atrás de mim se sentava uma menina chata e de voz ardida e do meu
lado um gordo fedorento chamado Robson que era mais burro que porta emperrada.
Para o meu azar a garota chata me amava. Ela não era feia, mas tinha os dentes
bem tortos, e sempre ficava me rodeando no recreio. Lá pela quinta ou sexta
série ela ainda continuava me amando. Só que lá pela quinta ou sexta série ela
já tinha uns peitinhos e nessa fase ir na escola passou a ficar mais divertido,
porque eu sempre ficava com ela e passava a mão naqueles peitinhos recém
nascidos nela e beijava aquela boca dela cheia de arames.
Na oitava série, ingressou um novo diretor no comando do
colégio. Um sujeito conservador tanto quanto um Papa da idade média. Este astuto
diretor passou a notar esse comportamento, digamos libidinoso, e aí tive o
ápice da minha carreira escolar naquele odioso colégio particular. Ele sempre
me chamava na diretoria por causa do agarramento com a fulana – que se chamava
Daniela – e disse que aquilo era inadmissível. Como eu não estava nem aí para
os conselhos comportamentais dele e como já tinha um certo temperamento
explosivo e desafiador de autoridades mandei ele tomar naquele lugar depois que
ele me chamou pela terceira vez na diretoria e ameaçou chamar minha mãe para
contar os meus feitos que “corrompiam o pudor e a reputação” daquele colégio.
Ele pretendia me suspender apenas, mas depois que mandei ele
tomar naquele lugar em alto e bom som, fazendo aquela secretaria escolar ficar
abismada com tal descaramento e arrogância da minha parte ele não teve outra
escolha. O resultado óbvio foi a expulsão e quase perdi o ano letivo dado isso.
Depois disso fui para uma escola pública novamente onde havia milhares de
“bad-boys” como eu e de certa forma eu passava batido pelo radar de diretores
moralistas.
Nesse novo colégio conheci os irmãos Berg, filhos dum
austríaco que era uma espécie de hippie sobrevivente de Woodstock. Alan e Ivan,
meus novos amigos eram gêmeos, e talvez incentivados pelo pai rockeiro, eram
metaleiros fãs incondicionais do Metallica, Iron Maiden e Black Sabbath. Logo
formamos um trio de arruaceiros sem precedentes naquela escola. Logo também,
para o desespero da minha mãe, deixei de usar cabelo curto e roupinhas bem
alinhadas. Passei a ter uma bela cabeleira digna de guitarrista e usar uma
camiseta do Vol.4 do Balck Sabbath o tempo todo.
Vale a pena dizer que, eu era o segundo sujeito na família a
ser corrompido pelo rock naquela família de costumes nada convencionais, devido
mamãe ser francesa e meu pai um libanês pão duro. Meu irmão era a primeira
ovelha negra da família e eu o segundo dentro da ótica da minha mãe e irmã.
Deixamos as aulas de piano, por aulas de violão e guitarra, escutávamos um rock
mais pesado, gostávamos de ter namoradas que não eram em nada o modelo de
garotinhas cristãs que elas prezavam tanto.
Meu irmão tinha uma namorada nessa época que se chamava
Claudinha. Aquela mulher me fascinava. Ela andava de moto, usava maquiagem com
muita sombra e batons vermelhos, roxos, laranjados, muitos anéis e tinha uma
tatuagem colorida dum dragão nas costas. Ela dava aula de inglês no Fisk e
tocava violão e me ensinou os primeiros acordes e cifras com músicas do Raul
Seixas, Legião Urbana e outras bandas do rock nacional da época.
Meu irmão era safo e sempre que podia ia com ele na casa dela
no final da tarde. E enquanto ele ficava trancado no quarto com ela eu ficava
na sala com a prima dela, Camila, que tinha minha idade, em longos amassos.
Camila era linda. Morena, de olhos castanhos, cabelo lisos e longos, parecia
uma deusa indiana. Não era gorda nem magra, tinha seios fartos e durinhos e um
traseiro empinado sensacional.
Depois que o meu irmão e sua namorada consumavam o que eles
chamavam de sessão de yoga, saíamos comer um lanche ou tomar sorvete. Isso
quando Claudinha não fazia aquele bolo de cenoura maravilhoso ou um milk shake
daqueles bem caprichados com chantilly. Depois disso eu e o mano véio dávamos
um rolê de skate ou jogávamos basquete no colégio técnico que ele cursava. Era
bem legal essa rotina.
Voltando aos irmãos Berg e nossa amizade, resolvemos montar
uma banda de metal para fazer um show na escola. A banda se chamava Corrosão
Cerebral. Os ensaios eram em resumo fumar maconha e fazer barulho aos finais
de semana. O pai deles patrocinava a banda de certa forma porque os
instrumentos eram todos do coroa. Nessa época começamos a não apenas fumar
maconha e beber uma cervejinha, mas também a freqüentar points barra pesada. Eu
como tinha um passado bem careta não era chegado em ficar nas rodas de
maconheiros com eles, preferia mais ficar na cervejinha que naquela época era
uma dificuldade de arrumar. Uma latinha de cerveja já era um grande negócio.
Os irmãos maconheiros para descolar um baseado eram obrigados
a ir de bike até um bairro longe pra caramba onde tinha um cara chamado Cavalo
que vendia o bagulho. Algumas vezes fui com eles nessa bocada e o “trafica”
tava na cara que era um ex-Febem. O pai deles apesar de ser riponga
quando descobriu a Mary Juana armazenada no guarda roupa deles desceu a cinta
neles. Foi nessa época que a banda foi para o saco. Ficaram um tempo de castigo
e com isso passei a freqüentar a casa de outro carinha.
Esse novo chegado se chamava Nelson, era caipira, seu pai era
fazendeiro, logo fiz a cabeça dele para deixar de escutar Zezé de Camargo e
Luciano para ouvir Led Zeppelin e deixar de usar aquelas roupas de caipira para
usar bermudas de skatista e camisetas de banda de rock. Em contrapartida eu era
obrigado a ajudar ele com deveres escolares e ir jogar bola com ele e os amigos
dele. Ele era um pamonhão perna de pau, gordo pra caramba adorava hot dog e
tubaína.
A coisa boa de ir na casa dele sem dúvida era a comida que a
mãe dele fazia, sempre tinha aquela comida de sítio, muito churrasco até porque
o pai dele também tinha um açougue. Outro motivo que tornava a casa dele legal
eram as irmãs dele. Duas beldades novinhas que também já estavam na fase de ter
uns peitinhos empinadinhos e coxinhas bem grossas. Nunca fiquei com as irmãs
dele e isso me entristece até hoje, porque elas sempre eram eleitas princesas
de rodeios e hoje estão mais tesudas ainda. Elas sempre faziam bailinhos
na garagem a ali era muito para descolar uma nova menininha para dar umas
beijocas e passar a mão nos peitinhos. Eu me lembro duma japonesinha linda que
adorava ficar com ela. Simone era seu nome, tinha aquele cabelinho típico
de nippon curtinho e por influência dela passei a fazer karatê oficialmente com
o avô dela. Além disso, a japonesada tinha um time de baseball que jogava todo
final de semana depois dum típico almoço oriental. Passei a jogar como
arremessador e sempre que vencíamos um jogo ou tinha um campeonato de karatê o
avô dela nos dava presentes pelas vitórias.
Num belo final de semana faltei ao baseball, pois o Nelson
queria que fosse com ele numa partida de futebol no campinho atrás da igreja.
Faltavam jogadores e convidei o Alex que era goleiro para ir junto também.
Nesse dia os Bergs já estavam à solta novamente e resolveram jogar bola
junto conosco depois que encontramos eles pelo caminho. Colocamos os dois na
defesa, e para nosso azar eles eram daqueles boleiros que gostavam da canela do
adversário e não da bola. Nelson ficava na banheira, era nosso Ronaldo Gordo
que só perdia gol. Ele fazia dupla de ataque com uma sapata chamada Patrícia
Chumbada que era nossa artilheira e marrenta para caralho. O apelido dela se
devia ao fato dela gostar de pescar. Time montado, na defesa os Berg, e
mais dois neguinhos o Cigano que corria pra caramba e só errava passe e o
Arnaldo Halls que corria pra caramba e também e distribuía cotovelo pra todo
lado. No meio estavam os nossos craques Bento e Buiú e eu que não fazia nada
junto dum nerd que apesar de nerd sabia ao menos segurar a bola, esse se chamava
Danilo Spock. O apelido era devido ele ser fã de Star Trek. Aliás, o meu
apelido nessa época era Macgyver, porque os caras diziam que eu sabia me livrar
de confusões arrumando boas desculpas.
Pois bem, perdemos o jogo e a paciência com o Nelson naquele
dia. Ele tinha perdido uns duzentos gols por ser fominha. Na volta para casa a
Patrícia xingava ele sem dó nem piedade e ele irritado co isso sentou um tapa
na cara da sapata que reagiu a moda feminina. Agarrou nos cabelos dele fez o
gorducho cair no chão e sentou a mão na cara dele, ou melhor, desceu o
kichute que ela levava na cara dele. Para se livrar dela ele deu um golpe um
tanto inusitado, mas que deu certo. Digamos que ele chutou o saco que ela não
tinha e a garota ficou sem ar. Depois disso ele saiu correndo se esconder.
Alguns minutos depois lá estava ele com os Bergs dando uma bola. Dessa vez no
baseado numa construção abandonada. Era a primeira vez que ele puxava um fumo.
Logo a Patrícia descobriu que estávamos ali e partiu pra cima dele novo e ele
saiu correndo, mas como era gordo e tava chapado apanhou de novo.
Depois disso fizeram as pazes e no final daquele ano
resolvemos entrar todos para o colégio técnico no ano seguinte no curso de
eletrotécnica. Estudávamos juntos na casa de um o outro e até a Pati entrou no
curso. Depois curiosamente ela engravidou dum carinha e saiu do curso.
Nessa época que vai mais ou menos
dos oito até os treze ou quatorze anos de idade eu passei dias memoráveis junto
dessa galera. Aquele sentimento de vida descompromissada com certas obrigações
e liberdade era o que mais prezava. Natural para que está nessa idade sonhar
com grandes coisas no futuro, na vida adulta, e por outro lado viver sem fazer
nada de concreto que leve a estes sonhos. Com o passar do tempo as cobranças
aumentavam, os sonhos também, mas por um lado para ir realizando cada nova
categoria de obrigação e responsabilidades e até mesmo os sonhos, era
necessário deixar de lado aquelas pequenas irresponsabilidades habituais da
infância e adolescência e até mesmo sacrificar os momentos com os amigos mais
chegados nas nossas cotas diárias de aventuras.
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