quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Gerenciando fatos e afetos

No dia seguinte como previsto Marie relatou a novidade para mamãe e titia. Ambas ficaram como se tivessem terminado de assistir a um filme de romântico. Assim que sentei na mesa para o café da manhã não pude evitar os comentários e conselhos delas. Como estava apressado para viajar para São Paulo tomar as últimas providências da mudança para Curitiba, tomei café num pulo, fiquei um pouquinho com Ivan trocando idéia com ele sobre a curta viagem que faria. Como sempre ele queria chocolate e saber de Bia pouco se importando com a minha ausência. Logo em seguida o novo motorista já estava a postos para nos levar eu e Marie para o aeroporto.
Chegando a São Paulo seguimos direito para o apartamento, almoçamos por lá mesmo e começamos a organizar o que iria na mudança. Assim que os funcionários da empresa de mudança chegaram tudo ficou mais acelerado e ao final da tarde estava tudo encaixotado para ser levado para Curitiba na manhã seguinte. Enquanto Marie comandava esses detalhes passei no escritório conversei rapidamente com Marcos e Aline. Após isso, tive uma reunião extraordinária com minhas assistentes explicando detalhes de como seriam nosso método de trabalho dali por diante. Quando voltei no comecinho da noite, meu pai também já havia aparecido por lá além do motorista que “veio por terra” trazendo o carro que havia emprestado de Marcos por ser mais espaçoso. Como o velho libanês iria conosco para Curitiba passar o final de semana - que coincidia com o dia dos pais e com a chegada de meu irmão Thalles - ele nos deu uma carona até seu rancho onde passamos a noite descansando antes de seguir viagem no dia seguinte.

Durante o dia corrido e atarefado não tive tempo de pensar nas recordações que aquele apartamento havia sido palco. Meu pai durante um churrasquinho improvisado começou a contar as histórias da época dele sobre aquele apê para os presentes, enquanto isso eu preparava as carnes. Logo eu também entrei na conversa e contei sobre a minha experiência de vida ali e de como tinha conseguido comprar de papai o apê que era dele numa cartada fora do convencional. Contei da época que passei apenas três meses ali com Valéria e Quim recém nascido e depois quando retornei para aquele lugar depois de ter passado um tempo morando com a mãe de Marie até ela nascer. Deixei a fase que Rose, Bia e Aline estiveram ali fora daquele papo, mas na antes de pegar no sono relembrei de detalhes passados com elas no famigerado apartamento. Cheguei a conclusão que aquele apartamento apesar das inúmeras mulheres que passaram por ele tivessem cedido aos meus apelos sedutores, nenhuma delas que havia passado por ali tinha permanecido em definitivo na minha vida. Aquele apartamento deveria ter alguma maldição referente a isso, mas fosse que fosse não tinha mais que me preocupar com isso. Deixaria aquele lugar desativado como um espaço onde passei bons e maus momentos podendo usá-lo eventualmente para alguma ocasião futura. Estaria levando comigo tão somente as lembranças do passado para uma vida nova. Recordações e lições de vida ruminadas entre aquelas paredes, além dos discos velhos, livros dos tempos de faculdade e garrafas de whiskys e vinhos teriam um novo lugar na minha nova vida em Curitiba.

Como Marie estava criando aos poucos uma nova decoração para a casa que estávamos comprando e tudo parecia fluir de vento em poupa com Ivan, as meninas jovens e velhas, além da nova fase com Ágatha. Talvez fosse verdade que tivesse que redobrar a atenção para tudo que estaria ainda por vir como Marise aconselhou, pois isso seria uma forma de manter as coisas andando nos trilhos de forma amena e sem perder a direção quando o destino resolve nos fazer passar por uma série de fatos repentinos e desordenados. A sensação de que tudo estava finalmente entrando numa etapa de novos sonhos e projetos era animadora e ao mesmo tempo criava expectativas para o futuro. Fazia anos que não sentia aquela sensação de alegria e leveza. Nem sabia mais quando tinha sido a última vez que havia sentido algo parecido com aquilo. Tentei puxar pela memória algum momento semelhante aquele e só encontrei algo similar quando me formei e quando os negócios engrenaram muitos anos antes. Naquele tempo tudo parecia já pronto e resolvido, mas como não sabemos o que o futuro nos reserva o conselho de Marise fazia todo sentido.


As meninas estavam numa fase de realizarem seus sonhos e traçarem planos para suas vidas o que contrastava com a decisão de mamãe e titia em se aposentarem de suas ocupações no colégio. Parecia que tudo estava se encaixando num grande quebra cabeças e as peças estavam sendo alocadas cada uma no seu devido lugar no tempo oportuno.  Em relação a Ágatha tudo parecia promissor, ela estava radiante com o acontecimento do dia anterior e pelo visto o susto daquele momento inesperado já havia dado lugar para essa alegria. Não havia mais razões para me preocupar com uma série de fatos do passado e presente, tinha que aproveitar o momento e aprender uma nova forma de apreciar a vida e a essência daqueles momentos. Todas as decisões tomadas nos últimos dias apesar de terem sido numa velocidade fora no normal estavam de pleno acordo com tudo que estava acontecendo de bom e até mesmo de ruim como a situação de saúde emocional de Bia. Assim sendo, não tinha como repensar nisso e naquilo e achar algum elemento que pudesse ser um detalhe que ensejasse arrependimentos ou falhas nas decisões tomadas até então. Finalmente estava tudo bem e fluindo como um rio que busca o oceano.

Na manhã seguinte acordei ao som dos movimentos do rancho, o barulho dos trotes de cavalos e do café da manhã sendo preparado avisava que um longo e cansativo dia de estrada iria começar.  Apesar da noite bem dormida ainda me sentia ansioso para chegar logo na nova casa e me instalar em definitivo. Depois dum café da manhã recheado de quitutes da roça pegamos a estrada e chegamos em Curitiba no final da tarde, pouco depois do caminhão de mudanças ter descarregado aquela pilha de caixas de papelão onde estavam mais de dez anos de objetos reunidos ao longo do tempo. Desde equipamentos de rádio-amador e instrumentos musicais até coleções de algumas coisas tais como réplicas de carros miniatura tudo iria precisar encontrar um novo espaço naquela casa que Marie estava redecorando. Depois dum jantar em companhia dos velhos e das crianças passei o restante da noite com Ágatha na minha nova suíte assistindo a um filme e relaxando daquela semana repleta de compromissos fora do habitual. Planejávamos fazer uma viagem a dois para Buenos Aires na semana seguinte como se fosse uma espécie de retomada da nossa última estadia por lá que acabou não sendo o nosso recomeço, mas uma semente que ficou meses sendo gestada nos sentimentos de Ágatha como uma possibilidade de relacionamento. Ela confessou que aquele final de semana em Buenos Aires tinha de fato mexido com os sentimentos dela em relação a mim e despertado nela algo que estava adormecido desde a época que éramos apenas dois adolescentes imaturos que haviam cedido aos encantos um do outro num final de semana inconsequente. Parecia algo digno de enredo para um filme, mas pensando nos encontros e desencontros da vida ter reencontrado ela tantos anos depois numa oportunidade dessas parecia o momento mais adequado para que pudéssemos realmente um conhecer ao outro de forma mais calma e fecunda sem ser alvo da interferência de terceiros. Acertados os primeiros detalhes dessa viagem ela foi para sua casa e eu fiquei em companhia do meu primeiro hospede naquele novo lar: O velho libanês passaria o final de semana em casa tentando de alguma forma reparar suas falhas do passado por não ter dado atenção e afeto aos filhos. Parecia que com a chegada dos netos o jeitão duro e seco dele estava cedendo ao peso dos anos e aos apelos duma espécie consciência arrependida por não ter aproveitado momentos ao lado dos filhos.  De certa forma, aquela conduta dele me servia como um alerta para deixar de trabalhar tanto e passar grande parte do meu tempo servindo ao meu próprio ego.  Assim como ele, não tinha aproveitado grandes momentos com os filhos na infância e sequer na adolescência deles. Tinha testemunhado poucos episódios das vidas deles.

No ano anterior quando Quim, meu primeiro filho, passou algum tempo comigo logo em seguida ele partiu estudar no EUA. Apesar de termos criado uma grande proximidade ele não estava mais presente tornando o cotidiano o combustível dessa relação mais profunda entre pai e filho. Isso me fez repensar todo o processo de enviar as garotas estudarem no exterior terem por um novo enfoque. Marie e Ingrid precisavam um dia cortar as amarras com os pais e deixar a casa, mas com elas faria um processo mais lento e gradual, ajustando cada detalhe dessa fase de preparação ao momento presente de nossas vidas. Marie já estava alguns passos a frente de Ingrid nesse processo devido ter morado com a mãe no exterior, mas por outro lado a dedicação de Ingrid nos estudos era o ponto em que Marie era deficiente. Sendo assim, precisava lapidar aquelas duas meninas para uma experiência de vida longe de casa e com maturidade para viverem coisas boas no futuro. Ágatha parecia reagir como as outras mães, sempre com um pé atrás com temor de soltar os filhos no mundo para que eles escrevam suas próprias histórias e encontrem seus próprios caminhos, mas ao menos ela tinha uma relação sem atritos com Ingrid que pelo visto tinha puxado o temperamento mais sereno e low profile da família. Já Marie com suas novas funções estava motivada e parecia ter ganho energias novas. Ao invés de passar o tempo em casa esperando algo acontecer ela passou a projetar a nova decoração disse que iria retomar alguns cursos. Parecia que a injeção de responsabilidade tinha surtido efeito imediato.   

Quanto a mim, precisava criar um método para me manter atento a tudo e tudo correndo dentro dos trilhos. Desde os negócios até essa nova fase de relações com os filhos e pessoas da família dum modo geral. Teria alguns meses complexos pela frente para gerenciar os negócios duma forma nova e passar com Ivan pela fase da ausência de Bia na vida dele. Apesar de Bia visitá-lo com freqüência, não era algo natural para ele ficar longe da mãe tanto tempo assim.  Naqueles primeiros dias junto dele tudo parecia bem, mas era nítido que ele sentia falta da mãe. Sempre questionando por ela e por que ela estava longe tínhamos que driblar alguma espécie de medo ou sentimento negativo dele em relação a tudo aquilo. A torcida de todos era para que Bia fosse capaz de reestruturar sua vida em todos sentidos e criar uma relação menos turbulenta com o filho que era a principal testemunha das instabilidades emocionais dela. Com certeza essa fase estava apenas no começo e Ivan ainda teria uma longa estadia ao meu lado até Bia ficar definitivamente em melhores condições.


Aos poucos pude compreender que aquela oportunidade de estar perto dos filhos, em especial de Ivan por ser o mais novo, era um ponto importante para estruturar novos caminhos para todos. Como nunca antes tinha passado dia a dia com filhos estava fazendo naquele momento um curso intensivo de como ser pai.  Estava tendo oportunidade de aprender a identificar como cada um deles são em suas personalidades de forma mais aguda e profunda e o melhor modo de abordá-los e ganhar a confiança deles. Parecia um jogo de estratégias e ao mesmo tempo de aprender a como manter uma relação de afeto num patamar de qualidade elevado como nunca tinha realizado antes. Até o momento estava tudo bem, mas sabia que poderia haver no futuro algum momento em que as coisas talvez pudessem sair fora do esperado e ter que ser mais duro ou impositivo em certas coisas, por isso, usar esse tempo em que tudo está correndo bem para aprender como cada um dele realmente age e pensa estaria sendo algo valioso para fomentar uma amizade entre pais e filhos.

Pessoalmente eu nunca admirei boa parte dos modos em que meus pais lidavam comigo em inúmeros casos. Muitas vezes abordavam assuntos delicados na presença de terceiros sendo que poderiam fazer isso em particular com cada um dos filhos. Muitas e muitas vezes tinhas obrigações e não opções que levassem em conta nossas aptidões e planos pessoais. Em suma sempre haviam muitas coisas que eram um ponto de atrito ou obstáculo para uma relação mais amena. Não estava disposto a ser da mesma forma. Parecia que o modelo deles de impor as coisas através de ordens como se fossem superiores hierárquicos e não de dialogar abertamente era o que comandava a visão de como se relacionar com os filhos. Esse formato seria o que eu não queria me valer de forma alguma. Uma das principais coisas que me levava a ter essa certeza era a figura do velho libanês como pai e pessoa. Embora tivesse seguido muito mais o estilo de tio Pepe de como me portar como pessoa e fazer as coisas dum modo mais prazeroso e sem tantas convenções sociais, apesar disso, sempre existiu dentro de mim uma competição interna e pessoal em superar meu pai em todos os sentidos. Tinha que superá-lo de alguma forma como pessoa e como homem de negócios. Com o passar do tempo, e depois de superado em ambos os itens, notei finalmente que aquilo era uma tendência natural de muitos filhos. Entretanto, percebi também que avaliar tê-lo superado era algo sem sentindo também, pois somos pessoas completamente diferentes que tomaram decisões de vida diferentes e comparar os sucessos e insucessos dele como os meus era algo sem a menor valia. Com isso fiquei feliz por ser eu mesmo sem ter sido moldado para ser mais um na multidão. De todas as pessoas que passaram na minha vida tinha aprendido lições de grande valor e precisava apenas saber quais eram essas lições boas e ruins e aprimorar o que ainda estivesse precisando dum plus no meu modo de ser.

De uns anos pra cá, tinha deixando de me desafiar, e isso começou com a fase negra durante o casamento com Bia. Deixei de buscar coisas novas e passei a cair em certas futilidades das quais ao invés de fugir passei a fazer parte. Notadamente passei a ter um circulo de amigos menor e menos qualificados em certos casos, repletos de pessoas convencionais que esperam mais do mesmo da vida e que se acham exitosas pelo pouco que são. Aquilo definitivamente não era o meu estilo e pior ainda estava contaminando insidiosamente a minha forma de ver certas coisas. Passei a recordar dos tempos em que estava nos meios acadêmicos cheios de pessoas grande saber humano e intelectual e comportamento mais elevado e sofisticado no quesito pessoal. Não que eu fosse me tornar um sujeito prepotente e extravagante devido a me relacionar com certas pessoas mais sofisticadas, mas estava na hora de retirar os boçais dos bares da vida e suas conversas habituais sobre mais do mesmo definitivamente do cenário da minha existência como pessoa. Esperava com isso retomar de certa forma a minha sede por coisas novas e por criar novas atividades num espaço e tempo em companhias mais agradáveis e proveitosas. Portanto, estava no lugar certo e na hora certa de mudar até mesmo esses pequenos detalhes em minha vida.

 Na manhã seguinte a casa nova e chateau estariam agitados com visitas e afazeres. Precisava organizar centenas de objetos em seus devidos novos lugares e com a ajuda de Marie criar um espaço para eu, ela e Ivan. Mesmo que provisoriamente por algum tempo aquela nova morada ao lado do chateau das avós seria nosso novo cantinho. Resolvi transformar o loft num home-office e academia doméstica. Enquanto isso, Marie planejava nossos novos dormitórios e um estúdio para ela na casa nova. Passamos o dia entre a recepção feita pelos meus pais para Thalles que chegava para passar também uma temporada com mamãe, e entre os afazeres da mudança com a ajuda de Ágatha. Depois do almoço de recepção de Thalles e sua filha passamos o resto do dia e noite na nova casa montando nossos quartos, transferido roupas e objetos pessoais para eles. Marie e Agatha criaram uma sala de brinquedos com um dos quartos vagos para Ivan. Enquanto isso eu tentava organizar um série de ternos e roupas no meu novo guarda-roupas e instalar uma TV. Ao cair da noite optamos por ficar em casa, visto que o velho libanês estava preparando uma série de pizzas caseiras no forno da casa como se fosse anfitrião e não hospede.  Mais uma vez toda família reunida em volta da mesa tivemos uma espécie de inauguração da nova casa. Depois dos comes e bebes fomos todos dormir.
Logo na manhã seguinte Bia apareceria para visitar Ivan e que ficou esfuziante com o reencontro com a mãe. Enquanto ele ficava com a mãe, eu e Marie dávamos duro no andar de baixo da casa nova arrumando uma série de objetos nas salas, copa e  cozinha e num escritório que seria o estúdio dela. Passamos mais uma vez boa parte do dia nessa atividade com a ajuda de Ágatha que tinha feito um bolo para o lanche da tarde que logo foi devorado por todos. Para fechar o dia caí na cama mais uma vez na companhia de Ágatha para um filminho como se fossemos um casal de namorados inocentes sem tramar ainda nada de mais ousado em nosso “namoro sério”.  Assim que o sono bateu, ela voltou para sua casa e fiquei mais uma vez com Ivan e Marie, além do hóspede libanês que dormiria com Ivan nos seus novos aposentos ainda em fase de decoração.

No decorrer da semana Marie terminou a decoração do quarto novo de Ivan. Mesmo assim, dispondo de dois espaços exclusivos tanto para dormir como brincar, ele preferia dormir comigo devido ainda sentir medo do seu novo dormitório. Apesar do capricho de Marie em pintar as paredes do novo quarto dele e fazer diversos desenhos infantis, Ivan parecia não ser muito influenciado com aquilo na hora de dormir. Aos poucos ele iria se habituando com seus cantinhos e tomando confiança em permanecer neles, ao meu ver era apenas uma questão de tempo e incentivo para que isso acontecesse. Depois da visita de final de semana de Bia ele parecia mais reconfortado com sua nova vidinha em companhia das irmãs bajuladoras e das avós atenciosas. Da minha parte eu passeava muito com ele todas as manhãs, tanto fora de casa como em passeios dentro do condomínio. Visitamos diversos lugares e fizemos passeios inusitados, como levar o avô no aeroporto, andar de Opala, e até mesmo ir em cafés e lanchonetes fazer uma boquinha nos finais de tarde em companhia de Marie. Ao que tudo indicava estaria na hora de começar a pensar na educação dele fora de casa e pensar em matricular ele no colégio de mamãe numa turma da idade dele no próximo ano. Confesso que nunca tive intimidade com tais assuntos e pensar sobre isso era mais uma novidade para mim nessa altura do campeonato. Como a decisão não era apenas minha e dependia da situação e aval de Bia isso poderia esperar algum tempo.

Quanto a Marie, ela parecia ter se tornando a dona da casa. Estava entusiasmada com a mudança e por ganhar um território definitivo onde pudesse realmente viver sua vida. Parecia que tinha se desamarrado definitivamente das correntes de sua mãe e de algumas coisas impostas pelas duas anciãs até então responsáveis pela estadia dela em Curitiba. Parece que tudo foi repentinamente tudo em relação a Marie foi transferido para a minha jurisdição e seria eu quem teria que lidar com o temperamento volátil dela e certos caprichos. Logo nessa primeira semana apesar de estar dando conta dos novos afazeres ela já tentava fugir de alguns compromissos com os estudos e tentava camuflar seus planos de encontros com seus admiradores. Como para mim aquilo não era novidade devido ter passado por situações comuns a essas na mesma idade. Assim sendo, tudo que ela tramava em fazer era fácil de detectar e manter as ações dela dentro do alcance do radar de paizão responsa. Mesmo assim, tive que sentar com ela mais uma vez e dialogar com ela sobre estudos, responsabilidades e como ela deveria se portar nas suas horas vagas. Isso fatalmente despertou o gênio volátil dela, mas apesar de contrariada pelos limites e certos nãos aceitou sem gerar mais atritos como era típico nas batidas de frente com a mãe. São nesses momentos que se passa a compreender que muitas das coisas que os pais fazem conosco baseados num senso de responsabilidade pelos filhos e também enxerga em como em certas ocasiões eles não souberam abordar uma situação de forma mais amena e com uma posição menos drástica.

Sentar com os filhos e chegar num acordo era como sentar com um cliente ou sócio e tentar colocar fatos e situações e fazê-los compreender mais por dados concretos e persuasão como que um acordo em certo ponto, mesmo havendo divergências e convergências, era o mais acertado para determinada relação ou situação de negócios. Usar essas mesmas estratégias, apesar do diferencial do lado afetivo se fazer presente de forma elementar, não fugia muito ao que fazia no dia a dia de trabalho.

Por outro lado, o que passou batido nessa zona de previsões, foi o ataque de ciúmes de Ágatha quando atendi uma ligação de negócios de Aline. Ela ficou furiosa como se aquela ligação fosse algo mais do que uma ligação habitual de fundo profissional. Por mais que pudesse ser isso, o chilique dela só demonstrava o quanto ela estava ainda insegura com nossa relação. Talvez o jeito de menina sonhadora dela ainda não tivesse dado lugar a uma mulher totalmente madura e confiante devido aos fatos que ela atravessou no passado. Apesar do perrengue e duma pequena discussão sobre isso, o que extraí desse momento foi o entendimento que precisava deixar ela confortável e confiante em nosso relacionamento evitando fatos e situações como aquela. Em tese, isso poderia fazer ela começar a ver as coisas de modo mais sereno e confiante e com isso passasse a ser até mesmo uma pessoa mais independente, visto que todo esse tempo tinha seguido quase à risca conselhos e orientações da minha mãe sobre que rumo deveria dar a sua vida. Parecia que havia não uma manipulação, mas sim uma necessidade dela se firmar em relação a si mesma sem necessitar de opiniões de terceiros e aprender a como reagir diante determinadas situações. Desde a época que resolvemos contar sobre Ingrid ser nossa filha ela fazia de tudo para adiar, pois parecia temer o desfecho ou que algo desse errado. Não tinha confiança que aquele ato por mais complexo que fosse seria o mais acertado a fazer sem adiar mais tempo.




Como Aline estava numa rota de saída, seja da empresa como do circulo pessoal, não entendia as motivações de Ágatha para se alarmar tanto com um simples telefonema num primeiro instante. Depois avaliando alguns detalhes se mostrava nítido que precisávamos ainda acertar algumas coisas para que tudo continuasse sendo promissor como na primeira impressão. Tinha que aproveitar aquele sentimento renovado que surgiu nela a partir do episódio sobre Ingrid e saber lidar com algumas das inseguranças dela que no fundo eram produto do passado que tinha que ser de alguma forma não mais somatizado no presente.  Mesmos sem achar um caminho definitivo para isso, a melhor opção foi mais uma vez dialogar e colocar as cartas na mesa. Depois duma conversa com ela no dia seguinte tudo ficou resolvido e ela confessou estar vivendo uma espécie de sonho adiado por tanta coisa que não conseguiu evitar no passado por não ter tido forças para lutar contra. Enfim, ambos tiveram que ceder e convergir e chegar num acordo assim como é habitual no campo dos grandes negócios para um resultado satisfatório.

Com o final de semana se aproximando a nossa agenda estava aberta para diversos programas. Desde um concurso de piano que Ingrid iria participar até uma viagem que Marie queria fazer junto de alguns amigos para o rancho do velho libanês no sul. Isso criava um dilema entre prestigiar uma ou outra e precisava tomar uma decisão que pudesse talvez contemplar as duas coisas no mesmo espaço de tempo. Como era impossível fazer isso tive que contrariar os planos de Marie que ficou furiosa em ter sido de certa forma preterida em relação à irmã. Acontecimentos assim mostravam que gerenciar uma vida nova levando em conta a família não era uma tarefa fácil...     
   

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