domingo, 3 de agosto de 2014

Sunday morning everything can change

No domingo despertei com Marie batendo na porta do meu loft trazendo ordens de minha mãe: teria que levar o trio de devotas na Missa. Além disso, avisou que o petit dejeuner estava servido. Ao sair ela ainda fez piada do meu pijama que era, nada mais nada menos, que um velho short de futebol e uma camiseta do Van Halen. Achei atípico Marie estar de pé tão cedo para os padrões dela, além do fato dela dizer que iria à Missa em companhia da avó e tia avó. Ao chegar na copa estavam todas já sentadas à mesa com trajes típicos de missa dominical dignos do século XIX. Espantado com o fato de Marie estar devidamente trajada de forma tão conservadora comecei a comentar sobre o modelito inovador da ocasião retribuindo a piadinha feita anteriormente por ela. Minha tia me censurou e disse-me para deixar de irritar a minha filha e me mandou ir acordar Ivan e prepará-lo para ir com elas na igreja. Embora o tom de ordem parecesse desaforado compreendi aquilo como algo que passaria a ser algo da minha rotina a partir de então. Cuidar do pequeno em todos os detalhes seria uma nova atividade da qual não tinha como esquivar. Naquele momento percebi que teria que dar atenção a tudo o que o garoto faz ou deixa de fazer nas vinte quatro horas do dia, ou ao menos quando ele estivesse acordado visto que ser um dorminhoco nato.

Fui até o quarto improvisado dele e ele ainda estava em sono intenso. Fiquei com pena de despertá-lo. Fiquei alguns minutos hesitando fazer isso. Ao abrir um pouco a janela para deixar um pouco de luz entrar e facilitar o despertar de Ivan tive uma idéia nova: Decidi que enquanto “as meninas” estivessem na Missa iria dar um passeio com ele. Acordei-o cantarolando Al Capone do Raul com uma pequena mudança no refrão: “Ei Ivan vê se tê orienta, assim dessa maneira nego Curitiba não agüenta”. Ele pareceu um pouco irritado com o sono interrompido e pouco se importou com a canção improvisada. Carreguei ele nos braços e isso fez ele ficar mais atento ao que estava se passando e rompeu o silêncio falando sobre alguma coisa que somente ele tinha conhecimento. Logo em seguida ele começou a perguntar pela mãe. Tive que explicar novamente todo enredo da mesma história e ele pareceu conformado mais uma vez com a explicação. Após isso levei ele comer alguma coisa junto com as velhotas e novamente ele questionou sobre Bia para minha mãe. Dessa vez coube a avó explicar mansamente o paradeiro de Bia e ludibriar a saudade do menino com uma promessa de dar para ele um chocolate depois do almoço. Aquilo fez Ivan mudar de pensamentos na hora. Ao que tudo indicava teria que usar os mesmos artifícios aprendidos numa aula prática com a velha francesa. Minha mãe sorriu para Ivan e disse para ele: “Depois o seu pai irá te levar comprar chocolates e nós três vamos comer muito chocolate então lembre ele de comprar chocolate para mim também mon petit!” – Mal terminada a frase em português minha mãe já aproveitou a deixa em francês para emendar uma vasta lista de recomendações para aquele dia quase em provençal. Ivan se divertia com o jeito de autoritário da avó falar comigo e tentava repetir algumas palavras em francês tais como: çava e oui. Ele ficava repetindo como um papagaio çava e oui, minha mãe o instigava a dizer outras palavras novas em francês. Aquele velho método já tinha sido usado comigo e meus irmãos, e agora era usado mais uma vez com os netos. Para muitos a situação seria engraçada, mas era algo comum dentro de casa quando pai e mãe falam outro idioma. Com tudo pronto levei mamãe, titia e Marie para igreja e fui com Ivan até o prédio do velho cafofo ver como estavam as coisas por lá com Décio e meu Opala 77 quatro portas. Havia cedido o apartamento para Décio morar a pedido de minha mãe depois que ele foi obrigado a se aposentar dos serviços que prestava para família por causa da diabetes estar comprometendo a saúde dele. Ao chegar ao apartamento, o agora aposentado “ex-mordomo” de mamãe me recebeu com seu imutável sotaque de interior. Ele ficou conversando com Ivan sobre alguma coisa que apenas ambos entendiam enquanto eu checava o carro para dar uma volta com os dois. Como Décio estava doente visitá-lo junto de Ivan, com o qual ele já tinha uma velha amizade, deixou o pobre homem feliz. Logo saímos dar um pequeno passeio de Opala e Ivan se divertia com as brincadeiras de Décio e com aquele carro antigo que havia sido reformado por completo. Estacionei em frente da igreja e ficamos por ali mesmo degustando o chimarrão trazido a tira colo por Décio. Ao final da Missa embarquei todos no velho carango - fomos almoçar num restaurante como se fossemos uma família tradicional que preza uma boa refeição em família aos domingos.

Como prometido compramos bombons para Ivan que decidia conforme a sua vontade quem comeria cada bombom. Ele foi distribuindo para cada um dos presentes uma trufa, ficando apenas com um bombom. Isso fez ele se arrepender da decisão de doar seus chocolates e passou a pedir mais doces para ele. Após a divertida sobremesa deixei Décio e o Opala no cafofo e fomos para casa de Ágatha como era hábito da minha mãe e tia Charlô aos domingos para ouvir um pequeno recital de piano de Ing. Chegando lá elas estranharam o silêncio da casa, pois sempre Ing estava tocando piano nesse horário. A casa estava fechada e quando já estávamos de partida dali chega um táxi com Ágatha e Ingrid como passageiros. Ambas pareciam transtornadas e havia motivo para tal: Na saída do mercado sofreram uma batida e o carro de Ágatha teve que ser rebocado. Ficamos algum tempo ali debatendo sobre o ocorrido quando não havia mais nada a fazer por ali voltamos para o petit chateau Charlô. Aquela conversa na casa de Ágatha me fez prestar a atenção no modo como todas aquelas mulheres se relacionavam entre si. Parecia haver um código de união entre elas que tinha sido forjado pelas duas anciãs ao ponto das mais novas seguirem à risca os mesmos padrões de comportamento de ambas em algumas coisas. Não era à toa que Marie tinha mudado em certos comportamentos. Ela estava mais serena e muito menos impulsiva, ela tinha aprendido a como obedecer sem questionar as ordens dadas pela avó e tia Charlotte. Ordens e recomendações que na casa da mãe dela sempre foi algo que vez ou outra ocasionava atritos entre elas. Marie apesar de alguns deslizes naturais da idade dela estava se tornando mais responsável e controlada emocionalmente desde que passou a morar longe de sua mãe. Sem dúvida isso se devia ao estilo da minha mãe e titia lidarem com ela até certo ponto. Tanto Marie como Ingrid pareciam ter admiração pelas duas anciãs velhas de guerra.

O outro lado da moeda também era evidente: Minha mãe tinha muito mais paciência nessa fase da vida do que quando era mais jovem e impunha certas coisas aos filhos na base de rígidas condutas e regras mais pragmáticas. Agora ela fazia o mesmo que sempre vez, mas como se usasse uma espécie de soft power, o qual apenas a experiência e tempo parece conceder aos nossos pais em relação a vida. Para Ivan as falas vinham sempre carregadas de afagos, brincadeiras e uma vasta paciência tibetana, para Marie o tom era outro: Mamãe e tia Charlô sabiam fazer-se entender por meias palavras, olhares e expressões. Aquela linguagem delas em relação aos netos era algo parecia ser um idioma deles. Idioma o qual eu deveria também aprender assim que notei que aquilo tudo apenas existe entre pessoas que sabem conviver juntas mantendo uma relação de afeto e respeito dentro de certos valores.

Se comigo no passado minha mãe tinha sido durona e impositiva em muitas coisas, hoje ela fazia o mesmo em relação aos netos com métodos mais brandos e muito mais eficazes. De certa forma compreendi muita coisa que ela me disse no passado e os motivos dela para dizer e fazer certas coisas. Observar aquela cena me causou uma espécie de apreensão de elementos que não se aprendem através de lições de livros ou orientações de especialistas. Cada dia que passava estava aprendendo a como lidar com inúmeras coisas novas e antigas dessa aventura chamada vida adulta.

Não obstante disso, percebi que Ivan tinha uma certa predileção por Ágatha quando ela estava presente. Logo que ela saltou do táxi ele se aproximou dela e não desgrudou dela até irmos embora. Durante a conversa ele ficava rodeando Agatha como se fosse ela a mãe dele. Já em casa esse comportamento dele era dirigido em relação a minha mãe, e na falta dela ou tia Charlô ele sempre procurava por Marie. Parecia que o dom feminino de cuidar de crianças era de fato algo tão natural quanto o céu ser azul. Talvez ele estivesse procurando nelas a presença de Bia ou algo parecido. Ao menos para mim não havia uma explicação melhor do que esta naquele momento.

Passei o restante da tarde arquitetando planos e brincando com Ivan. Demos uma volta pelo terreno ainda vago que restava na propriedade. Aquilo era um grande quintal ao ar livre onde o vento batia forte e a grama crescia verde como se fosse um pasto. Enquanto Ivan corria de um lado para outro junto dos cachorros de estimação, percebi que a casa do vizinho estava vazia. Eles haviam se mudado. Saltei o pequeno muro que separava uma residência da outra e trouxe Ivan comigo para aquela invasão de domicílio. Ficamos andando pela propriedade alheia analisando a casa e suas dependências externas. Quando percebi o telefone tocando em casa saímos numa espécie de fuga da casa do vizinho para tentar atender o telefone que tocava sem parar sem êxito. Com certeza era Bia fazendo uma ligação como era costume dela naquele horário antes do jantar. Retornei a ligação e Ivan ficou alguns minutos com ela conversando alegremente. Depois ajudamos tia Charlotte a preparar uma refeição e quando Ivan pegou no sono depois do jantar saí visitar Flávia na casa dela. Chegando lá, ela estava com alguns amigos numa espécie de final de churrasco, o qual ela sequer fez menção ou questão de me convidar. Não fiquei chateado com aquilo, mas usei aquela situação para criar um bode expiatório para terminar com ela naquele mesmo dia.

Assim que os amigos dela partiram aproveitei o tempo duma garrafa de vinho para expor para ela que estava passando por um momento complicado devido a situação de Ivan e que provavelmente iria retornar para São Paulo em breve. Mesmo a minha intenção sendo ficar, esse foi o argumento que fez ela compreender que manter uma relação com ela a distância era algo que ambos não queriam. Ela ficou chateada, mas acabou aceitando a decisão. Demos um último abraço e voltei para casa descansar do dia cheio. Usar aquele argumento falso me daria espaço e tempo para ir em outra direção nos assuntos do coração. Como Ágatha estava se demonstrando cada vez mais disposta a ter uma nova história comigo, fazendo de tudo para deixar claro essa intenção através do seu comportamento e atitudes, não havia mais como resistir a idéia de ter algo sério com ela. Naquela mesma tarde havia percebido que se tomasse esse rumo muito dificilmente alguma coisa poderia dar errado entre nós. As possibilidades com Ágatha fazendo parte da minha vida em definitivo estavam ficando claras devido uma série de fatores: Já nos conhecíamos há muitos anos, tínhamos uma filha, isso por si só já fortalecia a idéia de retomar uma historia interrompida no passado por caprichos do destino. Do passado até agora poucas foram as ocasiões que nos encontrarmos de forma tão contínua como nesses últimos meses em Curitiba. Por outro lado, no dia anterior ela havia me enviado pelo celular uma música de Carly Simon da trilha sonora do filme “A Difícil Arte de Amar”, aquilo foi como uma espécie de confissão dela, que mesmo sabendo do meu jeito de ser, indicava que ela estaria disposta a dar uma grande chance para nós. Passei a madrugada de sábado para domingo com aquilo na cabeça ouvindo a música diversas vezes, visto que ela havia me enviado com a tradução. A idéia de apostar todas as fichas em Ágatha parecia a mais certa de todas e começou a tomar contornos a partir daquela canção. Ela sempre esteve dentro da família de certa forma, conhecia bem a vida que eu tinha levado até então e isso tudo corroborava com a decisão de apostar numa nova história com ela. Na manhã seguinte ao levar Marie para o colégio teria que dar carona para ela e Ingrid e aquilo era a chance ideal de aproximarmo-nos sem fazer nada como antigamente: às escondidas. O destino parecia ter reajustado nossas rotas e direções como se fossemos dois barcos que navegaram anos por mares diferentes até se encontrarem num mesmo porto.

Dormi com esse pensamento na cabeça e com o terreno já preparado para que as coisas entre nós pudessem ocorrer naturalmente sem forçar nada. Iria   deixar o tempo e proximidade fazer seu trabalho de cupido esperando para que tudo desse certo.  

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