No
domingo despertei com Marie batendo na porta do meu loft trazendo ordens de
minha mãe: teria que levar o trio de devotas na Missa. Além disso, avisou que o
petit dejeuner estava servido. Ao sair ela ainda fez piada do meu pijama que
era, nada mais nada menos, que um velho short de futebol e uma camiseta do Van
Halen. Achei atípico Marie estar de pé tão cedo para os padrões dela, além do
fato dela dizer que iria à Missa em companhia da avó e tia avó. Ao chegar na
copa estavam todas já sentadas à mesa com trajes típicos de missa dominical
dignos do século XIX. Espantado com o fato de Marie estar devidamente trajada
de forma tão conservadora comecei a comentar sobre o modelito inovador da
ocasião retribuindo a piadinha feita anteriormente por ela. Minha tia me
censurou e disse-me para deixar de irritar a minha filha e me mandou ir acordar
Ivan e prepará-lo para ir com elas na igreja. Embora o tom de ordem parecesse
desaforado compreendi aquilo como algo que passaria a ser algo da minha rotina a
partir de então. Cuidar do pequeno em todos os detalhes seria uma nova
atividade da qual não tinha como esquivar. Naquele momento percebi que teria
que dar atenção a tudo o que o garoto faz ou deixa de fazer nas vinte quatro
horas do dia, ou ao menos quando ele estivesse acordado visto que ser um
dorminhoco nato.
Fui
até o quarto improvisado dele e ele ainda estava em sono intenso. Fiquei com
pena de despertá-lo. Fiquei alguns minutos hesitando fazer isso. Ao abrir um
pouco a janela para deixar um pouco de luz entrar e facilitar o despertar de
Ivan tive uma idéia nova: Decidi que enquanto “as meninas” estivessem na Missa
iria dar um passeio com ele. Acordei-o cantarolando Al Capone do Raul com uma
pequena mudança no refrão: “Ei Ivan vê se tê orienta, assim dessa maneira nego
Curitiba não agüenta”. Ele pareceu um pouco irritado com o sono interrompido e
pouco se importou com a canção improvisada. Carreguei ele nos braços e isso fez
ele ficar mais atento ao que estava se passando e rompeu o silêncio falando
sobre alguma coisa que somente ele tinha conhecimento. Logo em seguida ele
começou a perguntar pela mãe. Tive que explicar novamente todo enredo da mesma
história e ele pareceu conformado mais uma vez com a explicação. Após isso
levei ele comer alguma coisa junto com as velhotas e novamente ele questionou
sobre Bia para minha mãe. Dessa vez coube a avó explicar mansamente o paradeiro
de Bia e ludibriar a saudade do menino com uma promessa de dar para ele um
chocolate depois do almoço. Aquilo fez Ivan mudar de pensamentos na hora. Ao
que tudo indicava teria que usar os mesmos artifícios aprendidos numa aula
prática com a velha francesa. Minha mãe sorriu para Ivan e disse para ele:
“Depois o seu pai irá te levar comprar chocolates e nós três vamos comer muito
chocolate então lembre ele de comprar chocolate para mim também mon petit!” –
Mal terminada a frase em português minha mãe já aproveitou a deixa em francês
para emendar uma vasta lista de recomendações para aquele dia quase em
provençal. Ivan se divertia com o jeito de autoritário da avó falar comigo e
tentava repetir algumas palavras em francês tais como: çava e oui. Ele ficava
repetindo como um papagaio çava e oui, minha mãe o instigava a dizer outras
palavras novas em francês. Aquele velho método já tinha sido usado comigo e
meus irmãos, e agora era usado mais uma vez com os netos. Para muitos a
situação seria engraçada, mas era algo comum dentro de casa quando pai e mãe
falam outro idioma. Com tudo pronto levei mamãe, titia e Marie para igreja e
fui com Ivan até o prédio do velho cafofo ver como estavam as coisas por lá com
Décio e meu Opala 77 quatro portas. Havia cedido o apartamento para Décio morar
a pedido de minha mãe depois que ele foi obrigado a se aposentar dos serviços
que prestava para família por causa da diabetes estar comprometendo a saúde
dele. Ao chegar ao apartamento, o agora aposentado “ex-mordomo” de mamãe me
recebeu com seu imutável sotaque de interior. Ele ficou conversando com Ivan
sobre alguma coisa que apenas ambos entendiam enquanto eu checava o carro para
dar uma volta com os dois. Como Décio estava doente visitá-lo junto de Ivan,
com o qual ele já tinha uma velha amizade, deixou o pobre homem feliz. Logo
saímos dar um pequeno passeio de Opala e Ivan se divertia com as brincadeiras
de Décio e com aquele carro antigo que havia sido reformado por completo.
Estacionei em frente da igreja e ficamos por ali mesmo degustando o chimarrão
trazido a tira colo por Décio. Ao final da Missa embarquei todos no velho
carango - fomos almoçar num restaurante como se fossemos uma família
tradicional que preza uma boa refeição em família aos domingos.
Como
prometido compramos bombons para Ivan que decidia conforme a sua vontade quem
comeria cada bombom. Ele foi distribuindo para cada um dos presentes uma trufa,
ficando apenas com um bombom. Isso fez ele se arrepender da decisão de doar
seus chocolates e passou a pedir mais doces para ele. Após a divertida
sobremesa deixei Décio e o Opala no cafofo e fomos para casa de Ágatha como era
hábito da minha mãe e tia Charlô aos domingos para ouvir um pequeno recital de
piano de Ing. Chegando lá elas estranharam o silêncio da casa, pois sempre Ing
estava tocando piano nesse horário. A casa estava fechada e quando já estávamos
de partida dali chega um táxi com Ágatha e Ingrid como passageiros. Ambas
pareciam transtornadas e havia motivo para tal: Na saída do mercado sofreram
uma batida e o carro de Ágatha teve que ser rebocado. Ficamos algum tempo ali
debatendo sobre o ocorrido quando não havia mais nada a fazer por ali voltamos
para o petit chateau Charlô. Aquela conversa na casa de Ágatha me fez prestar a
atenção no modo como todas aquelas mulheres se relacionavam entre si. Parecia
haver um código de união entre elas que tinha sido forjado pelas duas anciãs ao
ponto das mais novas seguirem à risca os mesmos padrões de comportamento de
ambas em algumas coisas. Não era à toa que Marie tinha mudado em certos
comportamentos. Ela estava mais serena e muito menos impulsiva, ela tinha
aprendido a como obedecer sem questionar as ordens dadas pela avó e tia
Charlotte. Ordens e recomendações que na casa da mãe dela sempre foi algo que
vez ou outra ocasionava atritos entre elas. Marie apesar de alguns deslizes
naturais da idade dela estava se tornando mais responsável e controlada
emocionalmente desde que passou a morar longe de sua mãe. Sem dúvida isso se
devia ao estilo da minha mãe e titia lidarem com ela até certo ponto. Tanto
Marie como Ingrid pareciam ter admiração pelas duas anciãs velhas de guerra.
O
outro lado da moeda também era evidente: Minha mãe tinha muito mais paciência
nessa fase da vida do que quando era mais jovem e impunha certas coisas aos
filhos na base de rígidas condutas e regras mais pragmáticas. Agora ela fazia o
mesmo que sempre vez, mas como se usasse uma espécie de soft power, o qual
apenas a experiência e tempo parece conceder aos nossos pais em relação a vida.
Para Ivan as falas vinham sempre carregadas de afagos, brincadeiras e uma vasta
paciência tibetana, para Marie o tom era outro: Mamãe e tia Charlô sabiam
fazer-se entender por meias palavras, olhares e expressões. Aquela linguagem
delas em relação aos netos era algo parecia ser um idioma deles. Idioma o qual
eu deveria também aprender assim que notei que aquilo tudo apenas existe entre
pessoas que sabem conviver juntas mantendo uma relação de afeto e respeito
dentro de certos valores.
Se
comigo no passado minha mãe tinha sido durona e impositiva em muitas coisas,
hoje ela fazia o mesmo em relação aos netos com métodos mais brandos e muito
mais eficazes. De certa forma compreendi muita coisa que ela me disse no
passado e os motivos dela para dizer e fazer certas coisas. Observar aquela
cena me causou uma espécie de apreensão de elementos que não se aprendem
através de lições de livros ou orientações de especialistas. Cada dia que
passava estava aprendendo a como lidar com inúmeras coisas novas e antigas
dessa aventura chamada vida adulta.
Não
obstante disso, percebi que Ivan tinha uma certa predileção por Ágatha quando
ela estava presente. Logo que ela saltou do táxi ele se aproximou dela e não
desgrudou dela até irmos embora. Durante a conversa ele ficava rodeando Agatha
como se fosse ela a mãe dele. Já em casa esse comportamento dele era dirigido
em relação a minha mãe, e na falta dela ou tia Charlô ele sempre procurava por
Marie. Parecia que o dom feminino de cuidar de crianças era de fato algo tão
natural quanto o céu ser azul. Talvez ele estivesse procurando nelas a presença
de Bia ou algo parecido. Ao menos para mim não havia uma explicação melhor do
que esta naquele momento.
Passei
o restante da tarde arquitetando planos e brincando com Ivan. Demos uma volta
pelo terreno ainda vago que restava na propriedade. Aquilo era um grande
quintal ao ar livre onde o vento batia forte e a grama crescia verde como se
fosse um pasto. Enquanto Ivan corria de um lado para outro junto dos cachorros
de estimação, percebi que a casa do vizinho estava vazia. Eles haviam se
mudado. Saltei o pequeno muro que separava uma residência da outra e trouxe
Ivan comigo para aquela invasão de domicílio. Ficamos andando pela propriedade
alheia analisando a casa e suas dependências externas. Quando percebi o
telefone tocando em casa saímos numa espécie de fuga da casa do vizinho para
tentar atender o telefone que tocava sem parar sem êxito. Com certeza era Bia
fazendo uma ligação como era costume dela naquele horário antes do jantar.
Retornei a ligação e Ivan ficou alguns minutos com ela conversando alegremente.
Depois ajudamos tia Charlotte a preparar uma refeição e quando Ivan pegou no
sono depois do jantar saí visitar Flávia na casa dela. Chegando lá, ela estava
com alguns amigos numa espécie de final de churrasco, o qual ela sequer fez
menção ou questão de me convidar. Não fiquei chateado com aquilo, mas usei
aquela situação para criar um bode expiatório para terminar com ela naquele
mesmo dia.
Assim
que os amigos dela partiram aproveitei o tempo duma garrafa de vinho para expor
para ela que estava passando por um momento complicado devido a situação de
Ivan e que provavelmente iria retornar para São Paulo em breve. Mesmo a minha
intenção sendo ficar, esse foi o argumento que fez ela compreender que manter
uma relação com ela a distância era algo que ambos não queriam. Ela ficou
chateada, mas acabou aceitando a decisão. Demos um último abraço e voltei para
casa descansar do dia cheio. Usar aquele argumento falso me daria espaço e
tempo para ir em outra direção nos assuntos do coração. Como Ágatha estava se
demonstrando cada vez mais disposta a ter uma nova história comigo, fazendo de
tudo para deixar claro essa intenção através do seu comportamento e atitudes,
não havia mais como resistir a idéia de ter algo sério com ela. Naquela mesma
tarde havia percebido que se tomasse esse rumo muito dificilmente alguma coisa
poderia dar errado entre nós. As possibilidades com Ágatha fazendo parte da
minha vida em definitivo estavam ficando claras devido uma série de fatores: Já
nos conhecíamos há muitos anos, tínhamos uma filha, isso por si só já
fortalecia a idéia de retomar uma historia interrompida no passado por
caprichos do destino. Do passado até agora poucas foram as ocasiões que nos
encontrarmos de forma tão contínua como nesses últimos meses em Curitiba. Por
outro lado, no dia anterior ela havia me enviado pelo celular uma música de
Carly Simon da trilha sonora do filme “A Difícil Arte de Amar”, aquilo foi como
uma espécie de confissão dela, que mesmo sabendo do meu jeito de ser, indicava
que ela estaria disposta a dar uma grande chance para nós. Passei a madrugada
de sábado para domingo com aquilo na cabeça ouvindo a música diversas vezes,
visto que ela havia me enviado com a tradução. A idéia de apostar todas as
fichas em Ágatha parecia a mais certa de todas e começou a tomar contornos a
partir daquela canção. Ela sempre esteve dentro da família de certa forma,
conhecia bem a vida que eu tinha levado até então e isso tudo corroborava com a
decisão de apostar numa nova história com ela. Na manhã seguinte ao levar Marie
para o colégio teria que dar carona para ela e Ingrid e aquilo era a chance
ideal de aproximarmo-nos sem fazer nada como antigamente: às escondidas. O
destino parecia ter reajustado nossas rotas e direções como se fossemos dois
barcos que navegaram anos por mares diferentes até se encontrarem num mesmo
porto.
Dormi
com esse pensamento na cabeça e com o terreno já preparado para que as coisas
entre nós pudessem ocorrer naturalmente sem forçar nada. Iria deixar o tempo e proximidade fazer seu
trabalho de cupido esperando para que tudo desse certo.
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