Depois desse reencontro
com Elena em Madrid meu destino seria a terra de “babai”: Beirute.
Visitar aquela
cidade cerca de quinze anos depois que havia estado junto com o velho libanês — logo depois do final
da guerra civil libanesa — seria sem dúvida um novo
aprendizado de história e cultura social e humana. Aqueles postes cravejados de
tiros que eram comuns em muitos pontos da cidade e pessoas pedindo esmolas tinham
cedido espaço para uma cidade nova e moderna com prédios charmosos e pessoas
que queriam apagar da memória os incidentes sombrios do passado.
A sensação era
mais uma vez de que estava numa terra desconhecida e por outro lado rica em
referências de memórias afetivas devido às histórias que meu pai e tios nos
narravam quando éramos crianças. Meu pai nasceu nos subúrbios da região sul de
Beirute e quando ainda era criança migrou com sua família para a Genebra na
Suíça, depois Colônia na Alemanha, e por fim Argentina aos dezoito anos junto
de alguns irmãos e vovó. Eram todos praticamente sapateiros, alfaiates ou
marceneiros de ofício. Meu pai por ter paixão por cavalos deixou os móveis de
lado e passou a trabalhar para o meu avô materno num rancho onde criavam
cavalos de raça no Rio Grande Sul. Dessa forma a paixão deles pela mesma coisa
uniu não apenas o destino de ambos como também de meu pai com o de minha mãe.
Começaram a
namorar logo depois que ela retornou da França e um ano depois já estavam
casados e com uma filha, minha irmã Agnes que nasceu na Argentina devido papai
ter ido estabelecer uma filial dos negócios do meu avô por lá. Depois de algum
tempo residindo em terras portenhas retornaram ao Brasil devido o negócio não
ter logrado o êxito esperado. Naquela época como hoje trabalhar num mercado tão
específico e tido como de luxo era sem dúvida uma tarefa que não dava lucro
rápido. Voltando ao Brasil essa pequena família foi residir no interior de São
Paulo, mais uma vez devido aos arranjos do meu avô aquele jovem libanês de
vinte e cinco anos pode começar a fazer frutificar o seu talento como
comerciante, deixando assim ambos os cavalos como hobby e um negócio a parte. Anos
depois meus irmãos nasceram e por fim eu nasci na fase onde papai já era um
sujeito de renome na região e envolvido com política. Viajava muito com ele nas
épocas de eleições e testemunhava os bastidores dos acordos entre aqueles
homens que naquela época me pareciam tão distintos e bem humorados faziam em
jantares regados a muita bebida e causos. Apesar do ambiente festivo e repleto
de pessoas extrovertidas nessas ocasiões meu pai não bebia e nem falava muito,
era uma espécie de sujeito caladão na dele, mas que sabia impor suas idéias de
forma persuasiva com uma fala pausada e mansa que dominava a atenção de todos
ao seu redor. Quando estive no Líbano com ele quando era adolescente foi a
única vez que o vi chorar e demonstrar algum sentimento mais abertamente. Ao
visitar o antigo local onde moravam quando crianças ele e meu tio se emocionaram
em ver a velha casa já ocupada por novos habitantes ainda mantendo a arquitetura
da fachada a mesma. Ambos se abraçaram e começaram a relatar fatos que vieram à
memória naquele momento. Eu e meus irmãos que estávamos ali de camarote
assistindo aquilo ficávamos surpresos com essa demonstração emocional de ambos,
pois sempre ambos foram dois homens muito fechados e de poucas palavras até
mesmo com os filhos.
Desta vez, por
desconhecer o local com precisão não encontrei a tal casa onde essa cena
atípica se deu. Gostaria de ter estado mais uma vez nesse local como uma forma
de homenagem a memória da minha família paterna. Apesar disso, percorri muito a
cidade e conheci desde lugares onde o cheiro da comida me convidavam para
conhecer até locais onde belas libanesas eram uma atração a parte na paisagem.
Durante minha estadia na cidade conheci uma bela advogada que estava me
auxiliando em alguns negócios por indicação dum corretor local amigo do velho
libanês. Como meu árabe era nada mais que dizer bom dia e boa noite e devido
ser necessário alguém com habilidade e conhecimento em detalhes legais sobre
determinados assuntos a bela Gihan uma moça alta, de pele clara e olhos que
pareciam duas amêndoas na coloração me ciceroneou naquelas semanas em Beirute. Apesar
do encanto com a beleza dela, não tivemos nada mais que almoços e jantares
juntos e algumas baladas nas quais onde ela me apresentou a seu circulo de amizades
pessoais. Passei dias e dias na companhia desses novos amigos que sempre faziam
questão de regar nossos encontros com muita bebida, música e dança. De dia eu e
Gihan trabalhávamos e fechávamos negócios, à noite fechávamos a noite em bares
e discotecas com muita festa e conversas animadas e boas risadas.
Num final de
semana posterior a tantos negócios e baladas Gihan resolveu me levar para Jounie
almoçar com ela e conhecer alguns parentes dela. Passamos um final de semana
maravilhoso numa bela casa nas montanhas com vista para o Mar Mediterrâneo. No
final da tarde antes de voltarmos para Beirute ela me confidenciou algumas
coisas pessoais. Disse que havia terminado um relacionamento recentemente e que
se não fosse por isso talvez se arriscasse a ter um romance passageiro comigo
por ido com a minha cara. A franqueza e modo direto com que ela disse isso me
pegou de surpresa. Eu havia descartado qualquer possibilidade desde o início em
tentar alguma coisa nesse sentido com ela preferindo dar ênfase apenas a nossa
relação profissional e no máximo como amigos que se conhecem a pouco tempo. Fiquei
pensando em quantas mulheres no Brasil haviam passado na minha vida, as quais
não seriam capazes de demonstrar tanta segurança assim sobre suas emoções e ao
invés de dizerem as coisas com serenidade e honestidade sempre preferiam
encenar o papel de carentes e imaturas de corpo e alma. Raras eram as exceções
de mulheres que conhecia que tendo ou não envolvimento comigo que eram capazes
de dizer as coisas de forma direta com tanta personalidade e segurança sem cair
na pieguice. Gihan e Elena faziam parte desse rol, e por serem estrangeiras
talvez isso mude alguma coisa, mas uma com temperamento mais brando e outra com
o gênio mais explosivo não se escondiam em falsas impressões e desculpas
corriqueiras, falavam abertamente sobre como se sentiam e não responsabilizavam
ninguém por suas falhas ou algo de tenha dado errado em questões amorosas
principalmente. Simplesmente aceitavam, compreendiam e não faziam questão de
dramatizar tais fatos com remorsos ou ressentimentos banais. Aqueles dias
passados juntos de Carolina, Elena e Gihan me fizeram aprender algo novo sobre
as mulheres e descobrir muito daquilo que eu mesmo busco numa mulher.
Mesmo assim o meu
gan finale nas Arábias seria sem levar em conta nada disso, pois ainda segui
meu destino para Dubai jogar e golf e no avião conheci uma bela médica
jordaniana com a qual passei um final de semana digno de enredo de filme
naquela cidade esplendorosa no meio de tanta areia. Depois de tantas semanas
longe de casa e vivendo cada dia intensamente tinha que voltar ao Brasil. Tinha
que voltar a rotina que nem sempre é cheia de glamour e boas sensações, mas que
no fundo é de fato a minha vida real e tinha que cuidar dela duma forma nova e
mais madura.
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