domingo, 20 de julho de 2014

Beirut & Dubai



Depois desse reencontro com Elena em Madrid meu destino seria a terra de “babai”: Beirute.
Visitar aquela cidade cerca de quinze anos depois que havia estado junto com o velho libanês  logo depois do final da guerra civil libanesa seria sem dúvida um novo aprendizado de história e cultura social e humana. Aqueles postes cravejados de tiros que eram comuns em muitos pontos da cidade e pessoas pedindo esmolas tinham cedido espaço para uma cidade nova e moderna com prédios charmosos e pessoas que queriam apagar da memória os incidentes sombrios do passado.

A sensação era mais uma vez de que estava numa terra desconhecida e por outro lado rica em referências de memórias afetivas devido às histórias que meu pai e tios nos narravam quando  éramos crianças.  Meu pai nasceu nos subúrbios da região sul de Beirute e quando ainda era criança migrou com sua família para a Genebra na Suíça, depois Colônia na Alemanha, e por fim Argentina aos dezoito anos junto de alguns irmãos e vovó. Eram todos praticamente sapateiros, alfaiates ou marceneiros de ofício. Meu pai por ter paixão por cavalos deixou os móveis de lado e passou a trabalhar para o meu avô materno num rancho onde criavam cavalos de raça no Rio Grande Sul. Dessa forma a paixão deles pela mesma coisa uniu não apenas o destino de ambos como também de meu pai com o de minha mãe.

Começaram a namorar logo depois que ela retornou da França e um ano depois já estavam casados e com uma filha, minha irmã Agnes que nasceu na Argentina devido papai ter ido estabelecer uma filial dos negócios do meu avô por lá. Depois de algum tempo residindo em terras portenhas retornaram ao Brasil devido o negócio não ter logrado o êxito esperado. Naquela época como hoje trabalhar num mercado tão específico e tido como de luxo era sem dúvida uma tarefa que não dava lucro rápido. Voltando ao Brasil essa pequena família foi residir no interior de São Paulo, mais uma vez devido aos arranjos do meu avô aquele jovem libanês de vinte e cinco anos pode começar a fazer frutificar o seu talento como comerciante, deixando assim ambos os cavalos como hobby e um negócio a parte. Anos depois meus irmãos nasceram e por fim eu nasci na fase onde papai já era um sujeito de renome na região e envolvido com política. Viajava muito com ele nas épocas de eleições e testemunhava os bastidores dos acordos entre aqueles homens que naquela época me pareciam tão distintos e bem humorados faziam em jantares regados a muita bebida e causos. Apesar do ambiente festivo e repleto de pessoas extrovertidas nessas ocasiões meu pai não bebia e nem falava muito, era uma espécie de sujeito caladão na dele, mas que sabia impor suas idéias de forma persuasiva com uma fala pausada e mansa que dominava a atenção de todos ao seu redor. Quando estive no Líbano com ele quando era adolescente foi a única vez que o vi chorar e demonstrar algum sentimento mais abertamente. Ao visitar o antigo local onde moravam quando crianças ele e meu tio se emocionaram em ver a velha casa já ocupada por novos habitantes ainda mantendo a arquitetura da fachada a mesma. Ambos se abraçaram e começaram a relatar fatos que vieram à memória naquele momento. Eu e meus irmãos que estávamos ali de camarote assistindo aquilo ficávamos surpresos com essa demonstração emocional de ambos, pois sempre ambos foram dois homens muito fechados e de poucas palavras até mesmo com os filhos.

Desta vez, por desconhecer o local com precisão não encontrei a tal casa onde essa cena atípica se deu. Gostaria de ter estado mais uma vez nesse local como uma forma de homenagem a memória da minha família paterna. Apesar disso, percorri muito a cidade e conheci desde lugares onde o cheiro da comida me convidavam para conhecer até locais onde belas libanesas eram uma atração a parte na paisagem. Durante minha estadia na cidade conheci uma bela advogada que estava me auxiliando em alguns negócios por indicação dum corretor local amigo do velho libanês. Como meu árabe era nada mais que dizer bom dia e boa noite e devido ser necessário alguém com habilidade e conhecimento em detalhes legais sobre determinados assuntos a bela Gihan uma moça alta, de pele clara e olhos que pareciam duas amêndoas na coloração me ciceroneou naquelas semanas em Beirute. Apesar do encanto com a beleza dela, não tivemos nada mais que almoços e jantares juntos e algumas baladas nas quais onde ela me apresentou a seu circulo de amizades pessoais. Passei dias e dias na companhia desses novos amigos que sempre faziam questão de regar nossos encontros com muita bebida, música e dança. De dia eu e Gihan trabalhávamos e fechávamos negócios, à noite fechávamos a noite em bares e discotecas com muita festa e conversas animadas e boas risadas.

Num final de semana posterior a tantos negócios e baladas Gihan resolveu me levar para Jounie almoçar com ela e conhecer alguns parentes dela. Passamos um final de semana maravilhoso numa bela casa nas montanhas com vista para o Mar Mediterrâneo. No final da tarde antes de voltarmos para Beirute ela me confidenciou algumas coisas pessoais. Disse que havia terminado um relacionamento recentemente e que se não fosse por isso talvez se arriscasse a ter um romance passageiro comigo por ido com a minha cara. A franqueza e modo direto com que ela disse isso me pegou de surpresa. Eu havia descartado qualquer possibilidade desde o início em tentar alguma coisa nesse sentido com ela preferindo dar ênfase apenas a nossa relação profissional e no máximo como amigos que se conhecem a pouco tempo. Fiquei pensando em quantas mulheres no Brasil haviam passado na minha vida, as quais não seriam capazes de demonstrar tanta segurança assim sobre suas emoções e ao invés de dizerem as coisas com serenidade e honestidade sempre preferiam encenar o papel de carentes e imaturas de corpo e alma. Raras eram as exceções de mulheres que conhecia que tendo ou não envolvimento comigo que eram capazes de dizer as coisas de forma direta com tanta personalidade e segurança sem cair na pieguice. Gihan e Elena faziam parte desse rol, e por serem estrangeiras talvez isso mude alguma coisa, mas uma com temperamento mais brando e outra com o gênio mais explosivo não se escondiam em falsas impressões e desculpas corriqueiras, falavam abertamente sobre como se sentiam e não responsabilizavam ninguém por suas falhas ou algo de tenha dado errado em questões amorosas principalmente. Simplesmente aceitavam, compreendiam e não faziam questão de dramatizar tais fatos com remorsos ou ressentimentos banais. Aqueles dias passados juntos de Carolina, Elena e Gihan me fizeram aprender algo novo sobre as mulheres e descobrir muito daquilo que eu mesmo busco numa mulher.

Mesmo assim o meu gan finale nas Arábias seria sem levar em conta nada disso, pois ainda segui meu destino para Dubai jogar e golf e no avião conheci uma bela médica jordaniana com a qual passei um final de semana digno de enredo de filme naquela cidade esplendorosa no meio de tanta areia. Depois de tantas semanas longe de casa e vivendo cada dia intensamente tinha que voltar ao Brasil. Tinha que voltar a rotina que nem sempre é cheia de glamour e boas sensações, mas que no fundo é de fato a minha vida real e tinha que cuidar dela duma forma nova e mais madura.  

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