Estar no Rio de Janeiro aqueles dias
na companhia de Luíza fizeram brotar pequenas expectativas que há tempos não tinha. Depois
que tudo aconteceu de forma tão sublime e leve parecia que as coisas estavam se
encaixando na vida e tomando uma direção definitiva tanto no trabalho quanto
nos relacionamentos.
Só que a vida é como o jazz certas
horas. Há um tema e improvisações. As coisas podem ser recriadas a toda hora de
formas diferentes ou equivalentes sem perder a conexão com o tema principal.
Seria isso que ocorreria depois daquele dia em diante. Tudo transcorrendo como
uma narrativa que aponta para um só final possível devido as expectativas que
brotavam naquele momento em que pensamos e reagimos tudo ao sabor do momento,
da paixão que nos recarrega ilusões perdidas como se fosse um arquivo
atualizado de celular ou coisa parecida.
Talvez a comparação mais válida ainda
seja o tema e improvisação do jazz, por ser possível na música expressar
nuances e influências que tornam uma canção já conhecida em algo com uma nova
textura e sabor aos ouvidos. Dos dias que passamos juntos eu e Luíza até aquele
momento tivemos algo que era fundado não em emoções concretas e bem
estabelecidas. Tanto ela quanto eu, tínhamos voltado a ser adolescentes de
certa forma. Algum tempo depois olhando para isso as coisas ficam claras e
percebo que foram precipitadas apesar de não haver arrependimento por tudo que
aconteceu e da forma que aconteceu. Tudo entre nós foi forjado num cenário
propício para que duas pessoas desconhecidas pudessem se encontrar e ceder um
aos encantos do outro com extrema facilidade. Desde a viagem para Europa as
coisas aconteciam nessa tônica e os acordes e arpejos que vieram depois foram
embalados por melodia e harmonia perfeitas, mas em algum momento a improvisação
acaba e o tema principal, ao standard que é o eixo motor de tudo isso.
Algum tempo depois dessa aventura que
começa nos Alpes e chega até as areias de Ipanema muita coisa acontece de bonito,
mas sem a essência concreta das montanhas e muito mais parecido com castelos de
areia. Quando fui viajar para Portugal e Líbano a negócios no mês seguinte tive
um itinerário de novidades e recordações. Ao chegar em Lisboa a cidade estava em
festa eufórica devido a final do campeonato europeu de futebol entre
madrilhenhos. Passei uma semana reconhecendo a cidade e seus pontos de encontro
onde as pessoas habitualmente freqüentam como café, bares e restaurantes e
boates. Não fui fazer o turismo clássico pela cidade e conhecer a Torre de
Belém ou Mosteiro dos Jerônimos. Preferi noites regadas a boêmia, ao som da música
da terrinha e bons vinhos e uma mesa farta de novos amigos e comida saborosa e
festas de universitários que estavam encerrando seus períodos acadêmicos.
Nada ali tinha relação com os dias passados
com Luíza, seja nos Alpes ou Ipanema. Era o presente que mandava em tudo e
comandava minhas sensações e emoções. Por isso foi no ato que percebi que tudo
com Luíza não era mais aquela expectativa tola de que os adolescentes nutrem
quando encontram uma paixão passageira. Tinha sido bom sentir-se daquela forma
e isso aliado a decepções com Bia e Karen pareciam ser uma nova chance para
quem sabe fazer as coisas darem certo como nunca antes. Mas logo essa idéia se
mostrou mais como mera ilusão digna de um jovem imaturo que um cara na minha
idade nem deveria mais ter nessa fase da vida. Em todo o caso, sair do lugar
onde tudo ao nosso redor gira dentro da nossa órbita é uma das maneiras mais
fáceis de ver onde e como estamos às vezes.
Em algumas conversa com uma amiga
sempre dizia para ela: “Saia da sua cidade, tire uma férias de tudo que está
aí, e vai conseguir ver e sentir coisas que não consegue estando aí e tudo pode
se renovar”. Espero que ela faça isso, pois a experiência de renovar ares faz
também compreender muita coisa que está solta como partículas de energia natural
ao vento e que se juntam ou numa tempestade de raios ou numa brisa que refresca
nossa pele. Este é outro improviso dentro do tema. – Sair do comum e habitual e
buscar o inédito sem temer a conseqüência do ato e o fluxo dos acontecimentos.
Isso é ser livre, é ainda poder se libertar de alguma amarras e pesos inúteis
que carregamos sobre os ombros como uma cruz da qual somos devotos por pura
tolice. Não há erudito que possa nos ensinar essa sabedoria por letras de
tratados, temos que nós mesmos escrever nossos passos e aprender com eles
criando e buscando coisas novas dentro daquilo que nos é possível.
Se ir até um riacho nas cercanias da
cidade e colocar os pés na água é o máximo que podemos fazer, então que se vá,
não adie, pois naquele momento alguma coisa pode acontecer e nos fazer tomar
rumos diferentes para coisas velhas e estagnadas, bem como, nos fazer
compreender muitas verdades sobre onde estávamos antes. Foi isso que os ares
lisboetas fizeram comigo e dias depois ainda fui visitar Coimbra e na festa da
Queima das Fitas, naquela serenata noturna tradicional, eis que o meu olhar
cruza com duma moça vestida de negro como a ocasião recomenda e a novidade
aparece em tons de olhos castanhos e um sorriso tímido deixando naqueles dias
os olhares entusiasmados de Luíza esquecidos de certa forma para evitar a culpa
de ser transgressor de todas formas de fidelidade com o passado ou passageiro.
No meio daquela multidão cruzar olhares
era muito pouco, aos poucos movido pela audácia e ímpeto habitual em querer
conhecer uma bela mulher falou mais alto e atravessei a passos apressados
algumas pessoas até aproximar-me de Carolina para simplesmente vê-la mais de
perto e tentar dizer um olá. Acreditava que aquele momento por menor que fosse
sua duração seria algo memorável para a posteridade. E são nessas horas em que
agimos por impulso sem medir conseqüências que criamos caminhos novos para
coisas novas muitas vezes. Ao chegar a poucos passos dela ainda nos comunicávamos
com olhares e sorrisos, até que a coragem fútil para dizer um olá surgiu e
ficamos ali numa pequena conversa que deu inicio a um convite para um café em
plena madrugada e passamos o resto daquela noite conversando como se fossemos
velhos conhecidos.
Entre um comentário e outro sobre o
evento, logo o convite apareceu por iniciativa dela para minha grata surpresa,
e depois caminhando lado a lado entre as ruas tortas da cidade, entre um
assunto e outro encontramos um estabelecimento repleto de estudantes aberto e
em clima de confraternização. Por coincidência tanto ela quanto eu éramos
veteranos daquela universidade e isso foi apenas o começo de descobertas de
muitas coisas em comum numa mesa de bar que nos serviu como lugar comum para
falarmos de tudo que era coincidência entre nós. Nesse clima ameno e
descontraído as horas voam, as risadas e olhares se confundem com o cenário
alegre e não há como pensar no ontem, anteontem, nas semanas que se passoram em
outro lugar, pois tudo que importa é o momento presente.
Dessa conversa noturna outro convite
para um novo café “no dia seguinte” ao cair da tarde foi providenciado como se
fosse um presságio que o acaso tinha mais planos para duas pessoas que cruzam
olhares em meio a multidão. Mais um vez uma caminhada pelas ruas sem a menor
preocupação com nada. Se ela era de Viana do Castelo e eu de tão longe,
estávamos ambos na mesma situação, fora de casa e longe de qualquer julgamento
e prontos a aproveitar todos os momentos que pudessem acontecer. Ao final da
tarde, depois do por do sol apreciado num banco duma praça qualquer, fomos
tomar nosso café e manter nosso diálogo de olhares e confidencias como se nada
mais tivesse importância. Assim, logo após o café um cigarro a dois e uma pausa
sem assunto que nos fez rir um para o outro um último olhar para um beijo com
gosto de café com tabaco, não, com gosto de imprevisível. Desse momento em
diante Carolina era para mim a melhor companhia do mundo, por mais que fosse
tudo passageiro, era tudo movido com toques de acaso e aventura. Nada tinha
mais sabor sabor que isso, nem mesmo lábios com gosto de café.
O tal beijo então se tornou o assunto
principal, era inadmissível que um primeiro beijo fosse sabor de café com
cigarro. Não há como negar que o momento falou mais alto o improviso deu seu
ritmo e as coisas aconteceram assim. Após o beijo acafeinado saímos para mais
um passeio sem direção. Tudo acontecia de forma simples sem premeditação, e
acabamos num jantar e depois em algum evento que ocorria na cidade, as horas
passaram depressa novamente e a noite anterior de conversas deu mais espaço
beijos que variavam de gosto conforme do vinho. Para finalizar nosso encontro
no dia seguinte partimos juntos de Coimbra, cada um para seu destino. Carolina
voltava para casa e eu rumava Porto e lá, mais um final de tarde de conversas,
risadas e beijos, deixamos o café de lado para dar lugar ao vinho e quando ela
partiu para casa tive a sensação que tinha deixado escapar alguma coisa e temi não
rever Carolina nunca mais. Mesmo assim, não me apeguei a isso, estava tudo
consumado, ao menos aqueles dias juntos foram fantásticos e sem roteiros e
expectativas que nos deixam aflitos pelo que virá a ser.
O motivo da minha visita no Porto era
visitar um famoso alfaiate. No dia seguinte logo pela manhã ainda tentando
encontrar rastro do perfume de Carolina em algum lugar da minha camisa e depois
fui tomar medidas para um novo terno com aquela camisa que ainda tinha um leve
toque do perfume dela como se fosse um souvenir dos bons momentos vividos.
Depois disso tinha cumprido minha missão em solo português e rumei para Madrid
visitar uma amiga que havia se casado e estava grávida do primeiro filho.
Cheguei na cidade ainda em clima de festa pela conquista do Real Madrid, fui
recepcionado pelo casal de amigos e saímos jantar e colocar anos de conversa em
dia.
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