sexta-feira, 11 de julho de 2014

De Ipamena ao Porto



Estar no Rio de Janeiro aqueles dias na companhia de Luíza fizeram brotar pequenas   expectativas que há tempos não tinha. Depois que tudo aconteceu de forma tão sublime e leve parecia que as coisas estavam se encaixando na vida e tomando uma direção definitiva tanto no trabalho quanto nos relacionamentos.

Só que a vida é como o jazz certas horas. Há um tema e improvisações. As coisas podem ser recriadas a toda hora de formas diferentes ou equivalentes sem perder a conexão com o tema principal. Seria isso que ocorreria depois daquele dia em diante. Tudo transcorrendo como uma narrativa que aponta para um só final possível devido as expectativas que brotavam naquele momento em que pensamos e reagimos tudo ao sabor do momento, da paixão que nos recarrega ilusões perdidas como se fosse um arquivo atualizado de celular ou coisa parecida.

Talvez a comparação mais válida ainda seja o tema e improvisação do jazz, por ser possível na música expressar nuances e influências que tornam uma canção já conhecida em algo com uma nova textura e sabor aos ouvidos. Dos dias que passamos juntos eu e Luíza até aquele momento tivemos algo que era fundado não em emoções concretas e bem estabelecidas. Tanto ela quanto eu, tínhamos voltado a ser adolescentes de certa forma. Algum tempo depois olhando para isso as coisas ficam claras e percebo que foram precipitadas apesar de não haver arrependimento por tudo que aconteceu e da forma que aconteceu. Tudo entre nós foi forjado num cenário propício para que duas pessoas desconhecidas pudessem se encontrar e ceder um aos encantos do outro com extrema facilidade. Desde a viagem para Europa as coisas aconteciam nessa tônica e os acordes e arpejos que vieram depois foram embalados por melodia e harmonia perfeitas, mas em algum momento a improvisação acaba e o tema principal, ao standard que é o eixo motor de tudo isso.
Algum tempo depois dessa aventura que começa nos Alpes e chega até as areias de Ipanema muita coisa acontece de bonito, mas sem a essência concreta das montanhas e muito mais parecido com castelos de areia. Quando fui viajar para Portugal e Líbano a negócios no mês seguinte tive um itinerário de novidades e recordações. Ao chegar em Lisboa a cidade estava em festa eufórica devido a final do campeonato europeu de futebol entre madrilhenhos. Passei uma semana reconhecendo a cidade e seus pontos de encontro onde as pessoas habitualmente freqüentam como café, bares e restaurantes e boates. Não fui fazer o turismo clássico pela cidade e conhecer a Torre de Belém ou Mosteiro dos Jerônimos. Preferi noites regadas a boêmia, ao som da música da terrinha e bons vinhos e uma mesa farta de novos amigos e comida saborosa e festas de universitários que estavam encerrando seus períodos acadêmicos.

Nada ali tinha relação com os dias passados com Luíza, seja nos Alpes ou Ipanema. Era o presente que mandava em tudo e comandava minhas sensações e emoções. Por isso foi no ato que percebi que tudo com Luíza não era mais aquela expectativa tola de que os adolescentes nutrem quando encontram uma paixão passageira. Tinha sido bom sentir-se daquela forma e isso aliado a decepções com Bia e Karen pareciam ser uma nova chance para quem sabe fazer as coisas darem certo como nunca antes. Mas logo essa idéia se mostrou mais como mera ilusão digna de um jovem imaturo que um cara na minha idade nem deveria mais ter nessa fase da vida. Em todo o caso, sair do lugar onde tudo ao nosso redor gira dentro da nossa órbita é uma das maneiras mais fáceis de ver onde e como estamos às vezes.

Em algumas conversa com uma amiga sempre dizia para ela: “Saia da sua cidade, tire uma férias de tudo que está aí, e vai conseguir ver e sentir coisas que não consegue estando aí e tudo pode se renovar”. Espero que ela faça isso, pois a experiência de renovar ares faz também compreender muita coisa que está solta como partículas de energia natural ao vento e que se juntam ou numa tempestade de raios ou numa brisa que refresca nossa pele. Este é outro improviso dentro do tema. – Sair do comum e habitual e buscar o inédito sem temer a conseqüência do ato e o fluxo dos acontecimentos. Isso é ser livre, é ainda poder se libertar de alguma amarras e pesos inúteis que carregamos sobre os ombros como uma cruz da qual somos devotos por pura tolice. Não há erudito que possa nos ensinar essa sabedoria por letras de tratados, temos que nós mesmos escrever nossos passos e aprender com eles criando e buscando coisas novas dentro daquilo que nos é possível.

Se ir até um riacho nas cercanias da cidade e colocar os pés na água é o máximo que podemos fazer, então que se vá, não adie, pois naquele momento alguma coisa pode acontecer e nos fazer tomar rumos diferentes para coisas velhas e estagnadas, bem como, nos fazer compreender muitas verdades sobre onde estávamos antes. Foi isso que os ares lisboetas fizeram comigo e dias depois ainda fui visitar Coimbra e na festa da Queima das Fitas, naquela serenata noturna tradicional, eis que o meu olhar cruza com duma moça vestida de negro como a ocasião recomenda e a novidade aparece em tons de olhos castanhos e um sorriso tímido deixando naqueles dias os olhares entusiasmados de Luíza esquecidos de certa forma para evitar a culpa de ser transgressor de todas formas de fidelidade com o passado ou passageiro.

No meio daquela multidão cruzar olhares era muito pouco, aos poucos movido pela audácia e ímpeto habitual em querer conhecer uma bela mulher falou mais alto e atravessei a passos apressados algumas pessoas até aproximar-me de Carolina para simplesmente vê-la mais de perto e tentar dizer um olá. Acreditava que aquele momento por menor que fosse sua duração seria algo memorável para a posteridade. E são nessas horas em que agimos por impulso sem medir conseqüências que criamos caminhos novos para coisas novas muitas vezes. Ao chegar a poucos passos dela ainda nos comunicávamos com olhares e sorrisos, até que a coragem fútil para dizer um olá surgiu e ficamos ali numa pequena conversa que deu inicio a um convite para um café em plena madrugada e passamos o resto daquela noite conversando como se fossemos velhos conhecidos.

Entre um comentário e outro sobre o evento, logo o convite apareceu por iniciativa dela para minha grata surpresa, e depois caminhando lado a lado entre as ruas tortas da cidade, entre um assunto e outro encontramos um estabelecimento repleto de estudantes aberto e em clima de confraternização. Por coincidência tanto ela quanto eu éramos veteranos daquela universidade e isso foi apenas o começo de descobertas de muitas coisas em comum numa mesa de bar que nos serviu como lugar comum para falarmos de tudo que era coincidência entre nós. Nesse clima ameno e descontraído as horas voam, as risadas e olhares se confundem com o cenário alegre e não há como pensar no ontem, anteontem, nas semanas que se passoram em outro lugar, pois tudo que importa é o momento presente.

Dessa conversa noturna outro convite para um novo café “no dia seguinte” ao cair da tarde foi providenciado como se fosse um presságio que o acaso tinha mais planos para duas pessoas que cruzam olhares em meio a multidão. Mais um vez uma caminhada pelas ruas sem a menor preocupação com nada. Se ela era de Viana do Castelo e eu de tão longe, estávamos ambos na mesma situação, fora de casa e longe de qualquer julgamento e prontos a aproveitar todos os momentos que pudessem acontecer. Ao final da tarde, depois do por do sol apreciado num banco duma praça qualquer, fomos tomar nosso café e manter nosso diálogo de olhares e confidencias como se nada mais tivesse importância. Assim, logo após o café um cigarro a dois e uma pausa sem assunto que nos fez rir um para o outro um último olhar para um beijo com gosto de café com tabaco, não, com gosto de imprevisível. Desse momento em diante Carolina era para mim a melhor companhia do mundo, por mais que fosse tudo passageiro, era tudo movido com toques de acaso e aventura. Nada tinha mais sabor sabor que isso, nem mesmo lábios com gosto de café.

O tal beijo então se tornou o assunto principal, era inadmissível que um primeiro beijo fosse sabor de café com cigarro. Não há como negar que o momento falou mais alto o improviso deu seu ritmo e as coisas aconteceram assim. Após o beijo acafeinado saímos para mais um passeio sem direção. Tudo acontecia de forma simples sem premeditação, e acabamos num jantar e depois em algum evento que ocorria na cidade, as horas passaram depressa novamente e a noite anterior de conversas deu mais espaço beijos que variavam de gosto conforme do vinho. Para finalizar nosso encontro no dia seguinte partimos juntos de Coimbra, cada um para seu destino. Carolina voltava para casa e eu rumava Porto e lá, mais um final de tarde de conversas, risadas e beijos, deixamos o café de lado para dar lugar ao vinho e quando ela partiu para casa tive a sensação que tinha deixado escapar alguma coisa e temi não rever Carolina nunca mais. Mesmo assim, não me apeguei a isso, estava tudo consumado, ao menos aqueles dias juntos foram fantásticos e sem roteiros e expectativas que nos deixam aflitos pelo que virá a ser.

O motivo da minha visita no Porto era visitar um famoso alfaiate. No dia seguinte logo pela manhã ainda tentando encontrar rastro do perfume de Carolina em algum lugar da minha camisa e depois fui tomar medidas para um novo terno com aquela camisa que ainda tinha um leve toque do perfume dela como se fosse um souvenir dos bons momentos vividos. Depois disso tinha cumprido minha missão em solo português e rumei para Madrid visitar uma amiga que havia se casado e estava grávida do primeiro filho. Cheguei na cidade ainda em clima de festa pela conquista do Real Madrid, fui recepcionado pelo casal de amigos e saímos jantar e colocar anos de conversa em dia.                          

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