A
vida me trouxe mulheres temperamentais pelas quais perdia por elas o juízo.
Elena foi uma dessas mulheres. Uma espanhola de longos cabelos cacheados negros
e sorriso largo que agora estava casada e grávida. Do passado com ela, só
lembranças das noites regadas a beijos, vinhos e charutos. Sim ela apreciava tais
coisas, mas para um típica espanhola das cercanias de Madrid ela preferia sushi
e não paeja, rock e não flamenco. Com aquele par de olhos azulados como azulejos
ela conseguia fazer qualquer um perder o juízo e cortejá-la. Mas no fundo ela
não ligava para isso, sempre foi ela quem escolheu quem queria e até quando
queria.
Eu
fui apenas mais um talvez, mas um que ficou marcado na vida dela como quem
conseguiu fazer ela deixar a Espanha e vir ao Brasil e aqui ficar por alguns
meses, onde juntos desfrutamos nossas vidas lado a lado e apesar dos nossos
planos nunca terem ido além duma aliança de noivado e curtas viagens, sempre
que olhamos para o nosso passado comum sentimos que nada foi perdido. Esse foi
o teor duma conversa com ela num final de tarde na varanda enquanto esperávamos
seu marido sair do banho para jantarmos com amigos. O dia estava quente e logo
alguns convidados chegaram e nos separaram. Mesmo assim a cada olhar entre eu e
ela durante o jantar sempre havia uma frase não falada subentendida, coisa de
pessoas que um dia foram amantes e que aprenderam a ler um ao outro mesmo não
tendo permanecido juntos.
Creio
que poucas pessoas tenham essa sorte ou dádiva de compreender alguém que passou
na sua vida dessa forma mesmo não tendo ficado juntos por anos ou uma vida toda,
mesmo assim, o tempo que passaram juntos foi o suficiente para criarem uma
ligação intima e duradoura que o tempo não apaga. Estar com Elena era de certa
forma decifrar coisas que Luíza, Ágatha, Karen e tantas outras tinham em comum
no seu modo se ser. Era como se em todas elas houvesse uma essência do encontro.
Uma força que unia-me a cada uma delas por elas terem algo em comum. Se uma
tinha o jeito de olhar e falar a outra mesmo tendo outro jeito de olhar e falar,
tinham a mesma essência todas elas no que diziam quando estávamos a sós
desnudos numa cama depois do prazer. Até
mesmo nas brigas com Elena devido seu temperamento arisco e explosivo tinha a
ver com as mais calmas e serenas como Ágatha e Bia. Todas sabiam atingir pontos
da sua alma nessas horas que fazia valer a pena as pazes, pois no fundo havia
um elo entre querer algo um do outro mesmo com tantas diferenças.
Passei
aqueles dias em Madrid refletindo sobre Elena e os relacionamentos com tantas
outras, e nos motivos de todos até então terem fracassado. Ao passo que nada
ficava claro em muita coisa somente um detalhe se mostrava evidente: Mesmo que
nada tenha durado e sido como o esperado, tinha tudo valido a pena e se o tempo
pudesse voltar tudo teria que ser igual, pois como diz o ditado espanhol: “O
bailado e comido ninguém nós tira”
Na
despedida ela me deu um abraço caloroso e um beijo no rosto, me desejou boa
viagem para Beirute e disse para mandar notícias e voltar para conhecer o filho
dela. Para muitos o que foi uma mera despedida para mim foi uma declaração de
afeto e de que amor e paixão geram belas amizades duradouras.
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