quinta-feira, 17 de julho de 2014

Verano madrileño



A vida me trouxe mulheres temperamentais pelas quais perdia por elas o juízo. Elena foi uma dessas mulheres. Uma espanhola de longos cabelos cacheados negros e sorriso largo que agora estava casada e grávida. Do passado com ela, só lembranças das noites regadas a beijos, vinhos e charutos. Sim ela apreciava tais coisas, mas para um típica espanhola das cercanias de Madrid ela preferia sushi e não paeja, rock e não flamenco. Com aquele par de olhos azulados como azulejos ela conseguia fazer qualquer um perder o juízo e cortejá-la. Mas no fundo ela não ligava para isso, sempre foi ela quem escolheu quem queria e até quando queria.

Eu fui apenas mais um talvez, mas um que ficou marcado na vida dela como quem conseguiu fazer ela deixar a Espanha e vir ao Brasil e aqui ficar por alguns meses, onde juntos desfrutamos nossas vidas lado a lado e apesar dos nossos planos nunca terem ido além duma aliança de noivado e curtas viagens, sempre que olhamos para o nosso passado comum sentimos que nada foi perdido. Esse foi o teor duma conversa com ela num final de tarde na varanda enquanto esperávamos seu marido sair do banho para jantarmos com amigos. O dia estava quente e logo alguns convidados chegaram e nos separaram. Mesmo assim a cada olhar entre eu e ela durante o jantar sempre havia uma frase não falada subentendida, coisa de pessoas que um dia foram amantes e que aprenderam a ler um ao outro mesmo não tendo permanecido juntos.

Creio que poucas pessoas tenham essa sorte ou dádiva de compreender alguém que passou na sua vida dessa forma mesmo não tendo ficado juntos por anos ou uma vida toda, mesmo assim, o tempo que passaram juntos foi o suficiente para criarem uma ligação intima e duradoura que o tempo não apaga. Estar com Elena era de certa forma decifrar coisas que Luíza, Ágatha, Karen e tantas outras tinham em comum no seu modo se ser. Era como se em todas elas houvesse uma essência do encontro. Uma força que unia-me a cada uma delas por elas terem algo em comum. Se uma tinha o jeito de olhar e falar a outra mesmo tendo outro jeito de olhar e falar, tinham a mesma essência todas elas no que diziam quando estávamos a sós desnudos numa cama depois do prazer.  Até mesmo nas brigas com Elena devido seu temperamento arisco e explosivo tinha a ver com as mais calmas e serenas como Ágatha e Bia. Todas sabiam atingir pontos da sua alma nessas horas que fazia valer a pena as pazes, pois no fundo havia um elo entre querer algo um do outro mesmo com tantas diferenças.

Passei aqueles dias em Madrid refletindo sobre Elena e os relacionamentos com tantas outras, e nos motivos de todos até então terem fracassado. Ao passo que nada ficava claro em muita coisa somente um detalhe se mostrava evidente: Mesmo que nada tenha durado e sido como o esperado, tinha tudo valido a pena e se o tempo pudesse voltar tudo teria que ser igual, pois como diz o ditado espanhol: “O bailado e comido ninguém nós tira”

Na despedida ela me deu um abraço caloroso e um beijo no rosto, me desejou boa viagem para Beirute e disse para mandar notícias e voltar para conhecer o filho dela. Para muitos o que foi uma mera despedida para mim foi uma declaração de afeto e de que amor e paixão geram belas amizades duradouras.  

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